"A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdadeira" Theodor Adorno

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Doce Vingança de Nora Roberts

"Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plenamente os conflitos e dúvidas que a dominavam."
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Feérica, de Carolina Munhóz

"As fadas existiam porque humanos ainda acreditavam em sua existência. Violet decidiu que já era hora de mostrar que eles tinham motivo para isso."
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Especial de Aniversário de Clarice Lispector: A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens."
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Biografia de Harrie Stowe

"Eu sinto que agora é o tempo em que mesmo uma mulher ou criança que sabem falar uma palavra de liberdade e humanidade é obrigado a falar..."
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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri

TIÃO – Ninguém vale nada, pai!
OTÁVIO – Como você tem medo!
TIÃO (irritado) – Mas medo de que, bolas!
OTÁVIO (imperturbável) – De ser pobre… da vida da gente!
TIÃO (com um gesto de quem afasta os pensamentos) – Ah! Tou é nervoso… tou apaixonado, pai… Não liga, não! 
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 42)

  Eles Não Usam Black-tie é uma peça de teatro brasileira escrita em 1955 por Gianfrancesco Guarnieri. De acordo com Delmiro Gonçalves, a peça "foi uma das mais sérias e melhores tentativas de uma dramaturgia urbana brasileira". É uma história despretensiosa sobre a vida de alguns exemplares da classe de operários de uma favela carioca nos anos 1950.
   Em tempos de ocorrer uma greve dos metalúrgicos, com o total apoio de Otávio, Tião, seu filho, descobre que vai ser pai do bebê de Maria. Assim, o jovem de aproximadamente 20 anos quer estabilidade financeira para sustentar sua pequena família e poder sair do morro. Tião foi criado pelos padrinhos, na cidade, e servia como babá para os filhos deles. Nunca se adaptou a vida no morro, sendo operário, tendo que fazer greve para que o salário aumente em mixarias. Tião observa a vida corrida e pesada de Romana, sua mãe, sempre tendo que cuidar do barraco, de lavar roupas para outras pessoas e cuidar de seu marido e dois filhos, e não quer que o mesmo aconteça a Maria.

TIÃO – (…) Nesse mundo o negócio é dinheiro, meu velho. 
Sem dinheiro, até o amor acaba! Pois eu vou sê feliz, vou tê amo, 
e vou tê dinheiro, nem que pra isso eu tenha de puxá saco de meio mundo! 
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 68)

   Tião trabalha na mesma fábrica que seu pai, e com a greve, se aderir, há a possibilidade de ganhar aumento ou ser despedido. Se não aderir a greve, será visto como pelego e traidor, porém poderá se manter estável na fábrica. Em poucas páginas, cerca de 100, as dúvidas e medos de Tião se apercebem pelas falas e maneiras, muitas vezes sob palavras de confiança, escondidas e abafadas no meio de outras personagens que a ideologia de correr atrás dos direitos é o motor da vida.
   Sempre quis ler Eles Não Usam Black-tie. Lembro que o encontrei na biblioteca da escola de Ensino Médio que frequentei porém nunca fui tentada o bastante para pegá-lo emprestado. Agora adquiri um exemplar e consegui ler e me emocionar com as personagens, com seus medos, ideologias, sentimentos, e principalmente no final, que achei que acabou como deveria, ficou aquela sensação estranha de muita luta emocional e pouca conquista, bem semelhante à realidade. A peça é para ser popular, foi escrita como fala o povo, e é sobre as lutas do povo. É sobre as pessoas que não usam black-tie, mas que acordam tão cedo para trabalhar e ter um tempinho à noite para ser feliz, ao som de um samba tocado por Juvêncio, um manco, numa noite chuvosa...
Eles Não Usam Black-tie, de
Gianfrancesco Guarnieri

Nosso amor é mais gostoso,
Nossa saudade dura mais
Nosso abraço mais apertado
Nós não usa as "bleque-tais".

Minhas juras são mais juras
Meus carinhos mais carinhoso
Tuas mão são mãos mais puras,
Teu jeito é mais jeitoso...
Nós se gosta muito mais,
Nós não usa as "bleque-tais"...
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 24)

   A peça possui 3 atos e 6 quadros, e é ambientada no barraco de Romana. Foi representada pela primeira vez em 1958, no Teatro de Arena de S. Paulo, com direção de José Renato e performada por Miriam Mehler como Maria, Gianfrancesco Guarnieri como Tião, Lélia Abramo como Romana e Eugênio Kusnet como Otávio. Em 1981, foi lançado o filme com mesmo nome dirigido por Leon Hirsziman, e estrelado por Gianfrancesco Guarnieri como Otávio, Fernanda Montenegro como Romana, Carlos Alberto Riccelli como Tião e Bete Mendes como Maria, com música tema de Adoniram Barbosa, Chico Buarque de Hollanda e Gianfrancesco Guarnieri. Leon Hirsziman recebeu o prêmio FIPRESCI e o Grande Prêmio Especial do Juri no Festival de Veneza, o prêmio Grand Coral no Festival de Havana, Guarnieri recebeu o troféu APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) por Melhor Ator, e ganhou o Margarida de Prata. O filme recebeu atenção especial de John D. French, um professor do Departamento de História da Duke University, que pesquisou a representação social do filme e a verossimilhança com a classe operária brasileira dos anos 50 e 70, clique aqui.
   Guarnieri identifica sua obra como "uma visão romântica do mundo. Pressupõe uma série de valores básicos, imutáveis, através dos quais os problemas surgem, estourando os conflitos, os homens se debatem, mas tudo chegará a bom termo graças a uma providencial ordem natural das coisas, atingindo-se no tempo a harmonia geral esperada, em virtude de uma tomada de 'consciência'. Black-tie, no fundo, é uma peça idealista" que "reflete corretamente muitos aspectos da realidade brasileira".
   Penso que o sucesso da obra se dá por sua sinceridade, por sua representação sócio-política brasileira, pela escrita coloquial e por todo o sentimentalismo que as falas de Maria e Tião se inundam, contrapostas pelas falas de vivência dura de Romana e ideologias políticas de Otávio. É uma história atemporal.

ROMANA – É a verdade, e da verdade ninguém escapa, meu nego. 
E depois, cadeia foi feita pra ladrão, caixão pra defunto. 
Pra que ficá enganando os outros. É o fim mesmo. É ou não é minha filha? 
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 36)

Escrito por MsBrown
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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna

PALHAÇO

Auto da Compadecida! Uma história altamente moral e um apelo à misericórdia.

JOÃO GRILO

Ele diz “à misericórdia”, porque sabe que, se fôssemos julgados pela justiça, toda a nação seria condenada.

(SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida, pag. 16)



   A peça de teatro Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, é realmente um espetáculo! A linguagem simples e o tema de moralidade a torna acessível a todos.

   Primeiro assisti ao filme nacional, lançado em 2000, dirigido por Guel Arraes e estrelado por Matheus Nachtergaele, Selton Melo e Fernanda Montenegro. Apesar de ter gostado muito, nunca tinha pensado em ler a obra, até que, por acaso, a encontrei na biblioteca da faculdade e meu sorriso cresceu imensamente. Não me arrependo de ter tirado essas poucas horas para ler.

   Baseada em histórias populares do Nordeste, Auto da Compadecida recebe interferência de um Palhaço que inicia a peça, como se fosse um narrador oportuno. Esse Palhaço é um personagem que avisa aos espectadores o que eles podem esperar e também explica sobre a representação do Encourado (diabo), Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo (ou Manuel), para que o público não se assuste. Em dados momentos, o Palhaço intere quanto ao cenário, dizendo aos atores o que eles devem fazer, o que deu um gostinho de “improvisado” ao teatro e que gostei muito. É uma peça sem pretensão.



PALHAÇO

Ao escrever esta peça, onde combate o mundanismo, praga de sua igreja, 
o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, 
mais do que ninguém, que sua alma é um velho catre, cheio de insensatez 
e de solércia. Ele não tinha o direito de tocar nesse tema, mas ousou fazê-lo, 
baseado no espírito popular de sua gente, porque acredita que esse povo 
sofre e tem direito a certas intimidades.

(SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida, pag. 16)



   A peça trata-se das artimanhas de João Grilo que, sentindo-se negligenciado pelo patrão padeiro e a mulher do mesmo (que deram bife na manteiga para o cachorro e nada para o próprio João Grilo, numa ocasião em que este estava doente), tenta se vingar conseguindo mais dinheiro deles. O companheiro de João é Chicó, um homem sem coragem que conta muitas mentiras, porém inocentemente. A frase “Não sei, só sei que foi assim” é dele e sempre vem depois de uma história um tanto improvável como, por exemplo, um peixe pescando um homem. Esses dois personagens, é possível notar, são pobres e querem apenas sobreviver. No entanto, eles reconhecem a injustiça que as pessoas praticam e, no caso de João, isso não pode ficar assim.

   Os outros personagens incluem o Padre, o Sacristão, o Bispo (todos se envolvem na história de enterrar um cachorro em latim porque ele supostamente deixou um testamento oferecendo alguns trocados para essas pessoas), o Severino (um cangaceiro que manda matar quase todos), o outro cangaceiro e a representação do Encourado (o diabo), o demônio, Manuel (Jesus) e a Compadecida. Os últimos participam do ato final, do julgamento, numa cena hilária que trata a humanidade, com suas virtudes e fraquezas.

Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna
   No final do livro, tem o texto de Braulio Tavares , com o título Tradição Popular e Recriação no “Auto da Compadecida”, que discute a originalidade (ou a falta dela) do autor da peça. No primeiro parágrafo, é definido que Ariano Suassuna sempre que indagado de onde a ideia para tal cena veio, confessava que tinha lido em uma história, deixando quem perguntava um tanto desapontado. Então Braulio diz que, por contar algumas tradições, é lógico que Ariano tenha se baseado em histórias já contadas e que isso não diminui a originalidade, porque o individualismo literário se fez presente, e que isso acontece em muitas obras. No início do livro há três trechos de poemas que dizem muito sobre a obra em si: O Castigo da Soberba, obra popular recolhida por Leonardo Mota junto ao cantador Anselmo Vieira de Sousa (1867-1926), O Enterro do Cachorro, fragmento de O Dinheiro, de Leandro Gomes de Barro (1865-1918) e História do Cavalo que Defecava Dinheiro, obra popular recolhida por Leonardo Mota.

   Original ou não, Auto da Compadecida já se tornou um clássico do teatro, recebeu adaptação para o cinema e a televisão na forma de minissérie da Globo (em 1999). A cena do julgamento me lembrou a peça de Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno, com anjo e diabo discutindo para onde as pessoas deveriam ir. Aqui a Compadecida representa a compreensão sobre os humanos, e a chance de absolvê-los.



A COMPADECIDA

(…) É verdade que eles praticaram atos vergonhosos, 
mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. 
A carne implica essas coisas turvas e mesquinhas. 
Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, 
porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, 
e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.

(SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida, pag. 149)

Escrito por MsBrown
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domingo, 16 de junho de 2013

Morte de um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller

HAPPY: Ele quer apenas seu bem, isso é tudo. 
Eu queria conversar sobre papai com você faz um tempo, Biff. 
Alguma coisa está — acontecendo com ele. Ele — fala sozinho.
(MILLER. Morte de um Caixeiro Viajante, pag. 21)

      A peça de teatro Morte de um Caixeiro Viajante (Death of a Salesman), de Arthur Miller, foi lançada em 1949. O livro aborda as relações familiares, a preocupação com o que o mundo exterior pensará das ações de cada integrante da família e a ilusão de ser alguém amado e respeitado por todos.
O casal Willy e Linda Loman está enfrentando problemas. Inicialmente, esse problema está em Willy e em sua perda de sanidade. Agora ele anda falando sozinho, lamentando o fracasso de seu filho Biff, e seu amor por ele é mascarado pelo remorso. Biff foi embora da casa dos pais há algum tempo pois seu Willy passou a tratá-lo mal por não conseguir bons empregos. Em conversas entre Biff e seu irmão Happy, é possível perceber que Biff gostaria de se relacionar melhor com o pai, que ele o ama e se preocupa, porém é sempre uma luta quando tenta se aproximar. Já Happy é o irmão que, apesar de estar presente em quase todas as cenas, não é muito notado. Happy diz as novidades e a família sempre o ignora. A atenção é toda para Biff. Isso é um pouco revoltante, até porque quem está o tempo todo com os pais é Happy.


BIFF: Bem, eu passei seis ou sete anos depois do Ensino Médio tentando me ajustar. Despachante, vendedor, negócios de todas as formas; e é uma forma desprezível de viver. Pegar o metrô numa manhã quente no verão. Devotar toda a vida a manter estoque, ou fazer ligações, ou vender e comprar. Sofrer cinquenta semanas do ano por causa de duas semanas de férias, quando o que você realmente deseja é estar ao ar livre, sem sua camisa. E sempre ter que chegar à frente do seu companheiro. E assim — é deste modo que você constrói um futuro. 
(MILLER. Morte de um Caixeiro Viajante, pag. 22)

Com o decorrer da história, Willy começa a imaginar quando os seus filhos eram pequenos. Aí temos Biff e Happy brincando de jogar bola, e Willy dando muita atenção ao primeiro. Bernard, filho do vizinho, vai até a casa da família central e avisa Happy que Biff precisa ir fazer o teste de matemática, se não irá repetir na escola. Pai e filho ignoram o garoto que apenas queria o bem para seu amigo. Mas este fato é o que fica atrapalhando o relacionamento futuro dos dois. Porque este pequeno e aparentemente inútil fato transforma Biff em alguém que não consegue bons empregos. E, sendo assim, seu pai se angustia.
Willy é um vendedor iludido. Ele pensa que muitas pessoas se preocupam com ele e é muito popular. É por essa ilusão que há uma pressão para Biff ser perfeito. Pai e filho não trocam muitas palavras durante toda a peça, mas sim com os outros personagens, de modo que o leitor fica ansioso para saber como eles irão lidar quando resolverem conversar. O resultado, devo dizer, é angustiante. Quando Linda está em cena, tive até pena dela ao falar do marido. Ela, apaixonada por ele, e ele com problemas de perda de sanidade – um homem amargo, egocêntrico que queria ser amado por todos e não percebia que sua família nutria um imenso amor por ele.
O nome da peça (Death of a Salesman) se deu porque Willy conta porque decidir
Death of a Salesman,
de Arthur Miller
ser vendedor. A razão é que em sua adolescência ele conheceu um homem que fazia este tipo de trabalho. Este homem ligava para muitas pessoas e as pessoas ligavam para ele. Willy viu isso como “o homem popular amado por todos”, e passou a pensar que isso ocorria com todos os vendedores.
Não gostei muito do livro. Li-o em inglês e sei que deixei passar muita coisa, e talvez por isso tenha perdido a emoção. Senti-me mal quando Linda ficava dizendo que Willy era um homem bom e no final ele me decepcionou muito. Ele é aquela pessoa que quer muito ser amado mas que nunca mostra que ama as outras pessoas. Gostei do Biff, porque ele era sincero e consegui sentir seu desgosto por causar tantos problemas para sua família – problemas do tipo “tempestade num copo d’água”. Happy foi outro personagem que gostei, assim como Linda, mas que me deixavam triste por serem tão importantes para a trama e na história não serem tratados assim. 
O livro, uma das obras mais famosas do dramaturgo Miller, ganhou o Pulitzer e três Tony's.

LINDA: (…) Eu sei cada pensamento da mente dele.
Isso pode parecer antiquado e bobo, mas eu digo 
a você, ele colocou toda sua vida em suas mãos e você virou 
as costas para ele. (…) Biff, eu juro por Deus! 
Biff, a vida dele está em suas mãos!
(MILLER. Morte de um Caixeiro Viajante, pag. 60)

Em 1951 foi lançado o filme desta obra. Dirigido por Laslo Benedek, modificado por Stanley Roberts e estrelado por Fredric March como Willy Loman, Mildred Dunnock como Linda, Kevin McCarthy como Biff e Cameron Mitchell como Happy. O filme foi indicado ao Oscar: March por Melhor Ator, McCarthy por Melhor Ator, Dunnock por Melhor Atriz Coadjuvante, Franz Planer  por Melhor Cinematografia Preto e Branco e Alex North por Melhor Música e ganhou os Globo de Ouro por Melhor Cinematografia, Melhor Diretor, Melhor Ator de Drama para Fredric March e Ator Promissor para Kevin McCarthy, além de outros prêmios. A peça também atingiu a TV, em 1985, desta vez o filme dirigido por Volker Schlöndorff, com roteiro modificado pelo autor Arthur Miller, e estrelado por Dustin Hoffman como Willy, Kate Reid como Linda, John Malkovich como Biff, Stephen Lang como Happy. Recebeu o Globo de Ouro por Melhor Ator para Dustin Hoffman e foi nomeado por Melhor Filme, Melhor Atriz para Kate Reid e ganhou 3 Emmy’s.


WILLY: (…) Eu percebi que ser vendedor era a 
melhor carreira que um homem poderia querer. 
Por que o que seria mais satisfatório a poder ir, na idade 
de oitenta e quatro anos, em vinte ou trinta cidades diferentes, 
e pegar um telefone, e ser lembrado e amado e ajudado por tantas pessoas?
 (MILLER. Morte de um Caixeiro Viajante, pag. 81) 

Escrito por MsBrown
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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams

CHANCE: (…) Eu não sabia que havia um relógio neste quarto.
PRINCESS: Eu acho que há um relógio em cada quarto onde as pessoas vivem…
 (WILLIAMS. Sweet Bird of Youth, pag. 110)

   A peça teatral Doce Pássaro da Juventude (Sweet Bird of Youth), lançada em 1959 por Tennesse Williams, foi produzida na Broadway e também no cinema, tratando assuntos tão sérios porém tão brevemente.
   Chance Wayne é aspirante a ator. Está no mesmo quarto de hotel em St. Cloud, Flórida (cidade onde nasceu e está visitando) que Princess Kosmonopolis, a atriz Alexandra Del Lago, que pensa que seu filme de “come back”, seu retorno ao cinema, foi um fiasco. A atriz quer apenas esquecer a vida que leva (as críticas dos cinéfilos), por isso se registrou no hotel com um pseudônimo. Já Chance está interessado na ajuda da atriz para conseguir participar de um filme. Ambos enfrentam o tempo, a perda da juventude.
   Conhecemos a história de amor de Chance com Heavenly Finley, a ira de Tom “Boss” Finley (pai de Heavenly) contra Chance, sabemos os motivos porque muitas pessoas dizem a ele para ir embora da cidade e o pânico da Princess acerca de sua atuação e aceitação nas telas do cinema. Temos uma história sobre interesse, amor e principalmente a luta contra o tempo…

CHANCE: Cada vez que eu voltava para St. Cloud 
eu tinha o amor dela para voltar…
PRINCESS: Algo permanente em um mundo de mudanças?
CHANCE: Sim, depois de cada desapontamento, cada falha em algo, 
eu voltaria para ela como iria para um hospital.
 (WILLIAMS. Sweet Bird of Youth, pag. 48)

Capa da edição lida. As demais peças
já foram resenhadas aqui e aqui.
   Não posso dizer que adorei este livro. Como tenho lido outros do Tennessee, ficou difícil classificá-lo tão bom quanto os outros. Aqui o final foi ficando cada vez mais interessante, porém senti falta de maior exploração dos assuntos nele tratados (morte, doenças venéreas etc). Por exemplo, no primeiro ato, na primeira cena, Chance é notificado de que sua mãe faleceu. E é isso. Penso eu que se Tennessee tivesse explorado essa parte um pouco mais séria ficaria bem melhor, mas é claro que cuidando para que essa expansão do assunto não se tornasse clichê, mas poderia explicar melhor a personalidade de Chance. O livro não me causou fortes emoções, apesar de tratar temas sérios (retomando a discussão anterior, por conta dos problemas terem sido tratados muito brevemente, o sentimento não se passou para mim, a leitora), no entanto é fácil de ser lido (li em inglês) e o desfecho foi com uma fala que eu particularmente adorei:

CHANCE (…): Eu não peço por sua compaixão,
mas apenas pela sua compreensão — não, nem isso — não.
Apenas pelo seu reconhecimento de mim em você, 
e do inimigo, o tempo, em todos nós.
 (WILLIAMS. Sweet Bird of Youth, pag. 111)


   A peça se transformou em filme em 1962, dirigido por Richard Brooks e estrelado por Paul Newman (como Chance), que foi indicada ao Globo de Ouro como Melhor Ator de Drama, Geraldine Page (como Princess), que foi indicada ao Oscar e ao BAFTA por Melhor Atriz e ganhou o Globo de Ouro, Shirley Knight (como Heavenly), também indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro por Melhor Atriz Coadjuvante, e Ed Begley (como “Boss”), que ganhou o Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante e foi indicado ao Globo de Ouro. A peça também foi adaptada para a televisão em 1989, agora com direção de Nicolas Roeg, estrelando Mark Harmon (como Chance), Elizabeth Taylor (como Princess), Cheryl Paris (como Heavenly) e Rip Torn (como “Boss”).

Escrito por MsBrown
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quinta-feira, 21 de março de 2013

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee

 MARTHA
(...) Nós choramos o tempo todo, e depois que choramos,
nós pegamos nossas lágrimas e as colocamos numa caixa de gelo,
 nas malditas bandejas de gelo (Começa a rir) até que elas fiquem 
congeladas (Ri ainda mais) e depois... nós as colocamos... em nossos...
drinks. (ALBEE. Pag. 185-186)

   Quem Tem Medo de Virginia Woolf (Who's Afraid of Virginia Woolf?) é uma memorável peça de teatro, escrita por Edward Albee em 1962. Com três atos, quatro personagens e o cenário da sala de estar, essa obra simples ganhou, em 1963, o prêmio Tony de Melhor Peça e em 1962-1963 foi considerada Melhor Peça pela New York Drama Critics Circle Award.
Capa da peça aqui resenhada
   George e Martha são casados há bastante tempo. Ele é professor de História na universidade e ela, filha do reitor. Ao voltarem tarde duma festa, que o pai de Martha realizou, eles começam a trocar insultos e a beberem, mesmo cientes de que as visitas logo chegarão. O comportamento de George muitas vezes é condescendente, paciente, mas cheio de mágoa em relação à humilhação sofrida por causa de sua mulher, que grita e diz tudo o que vem pela cabeça.
   O casal Nick e Honey chegam e logo percebem a tensão dos anfitriões. Com isso, preferem entrar no "jogo" e passam a beber também. Nick é o novo professor de Biologia na universidade, e é um homem bonito. Honey é delicada e orgulhosa pelo marido. Fica bêbada tão depressa que não percebe que Martha está flertando com Nick - isso não passa despercebido por George.
   Martha sempre está a humilhar George, e ele a responde sagazmente. É como se ela estivesse pedindo por sua atenção, e nunca se cansasse. E ele, estando ciente disso, fingisse despreocupação. Há cenas sombrias, nos "jogos da verdade" que George incita, e os diálogos demonstram que os personagens nem sempre estão sendo sinceros. George e Martha falam bastando do seu suposto filho que fará aniversário no dia seguinte.  Nick e Honey ficam escandalizados com a atitude dos anfitriões, porém eles mesmos acabam confessando seus segredos de casal...

GEORGE
Há areia movediça aqui, e vocês serão arrastados (...)
Antes de perceberem, sugados para baixo (...)
Você me enoja, no princípio, e você é um filho da puta presunçoso 
pessoalmente, mas estou tentando te dar um kit de sobrevivência. 
VOCÊ ME OUVIU?
(ALBEE. Pag. 115)

   O título é um trocadilho com a canção do desenho animado da Walt Disney, Os Três Porquinhos, de 1933, e com o nome da escritora britânica Virginia Woolf. Como todos os personagens possuem um vínculo financeiro com os pais (das mulheres), isso demonstra que suas atitudes são pouco adultas. Juntando Virginia Woolf, escritora que queria que revelar a verdade das experiências humanas, os casais aqui tinham medo da realidade, de confessar as verdades. Quem Tem Medo de Virginia Woolf é uma peça com apenas quatro personagens com medo similares; ao se embebedarem, eles acabam misturando realidade e fantasia, e isso pode deixar o leitor confuso, porém, no final, basta entender que são dois casais - um de longa data e outro recém-casado - que nunca tiveram que explorar o mundo por si mesmos, agindo até como crianças medrosos do lobo mau, ou seja, da verdade que se encontra nos escritos da Virginia Woolf.
O filme, estrelado por Elizabeth Taylor e Richard Burton
   Deste livro foi lançado o filme de mesmo nome em 1966, com roteiro de Ernest Lehman, dirigido por Mike Nichols (seu primeiro filme) e estrelado por Elizabeth Taylor, no papel de Martha, Richard Burton como George,  George Segal como Nick e Sandy Dennis como Honey. O filme foi o primeiro a ter o elenco principal e todas as categorias elegíveis ao Oscar de 1967, ganhando os de Melhor Atriz para Elizabeth Taylor, Melhor Atriz Coadjuvante para Sandy Dennis, Melhor Fotografia preto-e-branco e Melhor Figurino. Na época, Elizabeth Taylor e Richard Burton eram casados e os tabloidos anunciavam bebedeiras e brigas do casal. O filme recebeu o BAFTA de 1967, em Melhor Filme de Qualquer Origem, Melhor Atriz Britânica para Elizabeth Taylor, Melhor Ator Britânico para Richard Burton e faz parte da lista dos 100 melhores filmes pela AFI.
   Como assisti o filme primeiro, quando li a versão em inglês já tinha os rostos dos personagens em minha cabeça. Em nada me decepcionaram. Gostei tanto do filme quanto do livro. Posso dizer que a única diferença entre eles é que, no livro, o cenário é a casa, e no filme eles até se deslocam a mais um cenário. Ler em inglês foi um passo muito importante no meu crescimento, pois foi o primeiro livro adulto que li na língua estrangeira. A linguagem das peças sempre são claras, rápidas, e isso vem me conquistando cada vez mais. Às vezes uma peça proporciona mais emoção do que os romances que indicam cada passo dos personagens.

MARTHA (Imita um sotaque)
Awww, esse refúgio que pegamos quando a irrealidade do mundo 
pesa demais nas nossas pequenas cabeças. (Voz normal novamente)
Relaxe; entenda isso; você não é melhor que ninguém.
(ALBEE. Pag. 187-188)
Escrito por MsBrown

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

À Margem da Vida, de Tennessee Williams

   Tennessee Williams não tem medo de expor seus pensamentos. Quando se lê suas obras, é possível relacioná-las a fatos de sua vida - suas angústias, a constante procura por compreensão. Isso é o que acontece em À Margem da Vida (The Glass Menagerie), a peça de teatro em que é apresentado Tom Wingfield, um jovem que trabalha num depósito de calçados, mas que quer ser escritor e entrar para a Marinha Mercante.

Tom

(…) Na Espanha houve Guernica!

Mas aqui só havia música de swing hot e uísque, salões de dança,

cinemas e sexo, que pairava na penumbra como um lustre e inundava

o mundo de arcos-íris breves e ilusórios.…

(WILLIAMS. À Margem da Vida, pag. 69)

   As relações familiares são sempre difíceis nas obras de Williams. Neste livro, ambientado na década de 1930, Tom tem problemas com a mãe, Amanda, pois esta sempre está a dizer que ele é egoísta por querer ser escritor e ir embora. Tom é o único em sua casa que trabalha e tem que sustentar a mãe e a irmã, Laura. Mas ele não está feliz. Todos os dias vai ao "cinema" e volta apenas a poucas horas de acordar e ir para o trabalho.
   Laura é a irmã, frágil, que tem problemas de saúde. Ela não terminou os estudos, tem grande dificuldade para lidar com as pessoas, é aleijada e tem o complexo de inferioridade. Amanda, que em sua juventude foi encantadora e tinha muitos pretendentes, quer arranjar um marido para Laura, sugerindo que Tom convide um de seus amigos para um jantar. O pai de Tom, que participou da Primeira Guerra Mundial, abandonou a família certo dia, deixando Amanda de coração partido e ela nunca o superou - constantemente compara-o com Tom.
   O cavalheiro visitante - convidado de Tom -, chama-se Jim O'Connor e representa a esperança de Amanda e Laura (ela era apaixonada por ele no colégio). Jim tenta convencer Laura de que ela precisa se sentir superior, parar de criar ilusões sobre ser menos importante, mas Jim apresenta ser muito rígido com sua aparência e um tanto alheio à realidade também.

   Tom é incompreendido. Quer ser escritor mas tem que trabalhar com calçados para a sobrevivência. Suas idas ao "cinema" podem significar muitas coisas. É certo que ele realmente vai ao cinema, mas passa por outros lugares depois, frequentemente voltando para casa num estado deplorável. Tennessee Williams teve um pai (abusivo) vendedor de calçados que era veterano de guerra; quando criança, teve difteria (doença respiratória infectocontagiosa) e mais tarde problemas com alcoolismo e anfetaminas e barbitúricos, logo após sua irmã Rose ficar incapacitada pela cirurgia de lobotomia, em 1937 - fatos que contribuíram para a feracidade/veracidade de À Margem da Vida, cheia de diálogos honestos e sofridos.
   Laura possui uma coleção de animais de vidro, tendo como seu preferido o unicórnio, um grande símbolo para o livro. Tennessee também era apreciador dessa arte e quando criança tinha enfeites de animais de vidro em seu quarto. É possível que Laura tenha sido inspirado pela irmã Rose e Amanda pela própria mãe de Tennessee, sobrando Tom para o papel do autor. Enquanto isso, o pai Wingfield, ausente, poderia representar a falta de fraternidade entre o autor e seu pai.

Tom

Mas sou o contrário de um mágico de teatro. 
Ele lhes dá uma ilusão com aparência de verdade. 
Eu lhes dou a verdade sob o disfarce agradável da ilusão. 
(WILLIAMS. À Margem da Vida, pag. 26)

   Tennessee Williams escreveu pedaços de sua vida, conferindo a angústia de todos os personagens, uma poética tocante - uma esperança tênue -, na peça que iniciou sua carreira de sucesso, em 1944. À Margem da Vida recebeu o prêmio New York Drama Critics' Circle e foi produzida para o cinema em 1950, dirigido por Irving Rapper e estrelado por Gertrude Lawrence, Kirk Douglas e Jane Wyman. Em 1973, a obra foi filmada para a TV, com a direção de Anthony Harver e estrelando Katherine Hepburn, Sam Waterston e Joanna Miles. Outras adaptações também foram realizadas.
   As obras de Tennessee Williams são psicológicas, realistas. Ele é um autor sem medo de se expor, procurando, talvez, através de suas próprias palavras, alguma compreensão, assim como a maioria de seus personagens. Em À Margem da Vida havia uma atmosfera quase fúnebre pelos sonhos não alcançados, e depois a poesia, a visão da esperança, a procura por algo significativo, os símbolos, a visão do passado e presente, através do narrador-personagem Tom Wingfield.
   Para ler mais sobre o autor, clique aqui. Para conhecer outra obra, Um Bonde Chamado Desejo, clique aqui.


Escrito por MsBrown
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