"A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdadeira" Theodor Adorno

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Doce Vingança de Nora Roberts

"Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plenamente os conflitos e dúvidas que a dominavam."
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Feérica, de Carolina Munhóz

"As fadas existiam porque humanos ainda acreditavam em sua existência. Violet decidiu que já era hora de mostrar que eles tinham motivo para isso."
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Especial de Aniversário de Clarice Lispector: A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens."
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Biografia de Harrie Stowe

"Eu sinto que agora é o tempo em que mesmo uma mulher ou criança que sabem falar uma palavra de liberdade e humanidade é obrigado a falar..."
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Livro das Princesas, Meg Cabot - Paula Pimenta - Lauren Kate - Patrícia Barboza

   O Livro das Princesas, lançado em 2013 no Brasil, é uma coletânea de contos de fadas modernizado. Quatro escritoras de grande sucesso entre o público infanto-juvenil e jovem adulto se uniram para nos contar novas histórias baseadas nos contos clássicos que conhecemos. Além dessa seleção especial de autoras, o livro é recomendado por uma das princesas mais conhecidas da literatura juvenil, a Sua Alteza Real, Princesa Mia Thermopolis, de Genovia (personagem criada por Meg Cabot em O Diário da Princesa que virou Best-seller e foi inspiração para dois filmes da Disney).

   Meg Cabot, autora estadunidense famosa por A Mediadora e O Diário da Princesa, contribuiu com a pequena história baseada no conto A Bela e a Fera, com o título A Modelo e o Monstro.
Meg Cabot, autora de
A Modelo e o Monstro
   Belle e Adam conseguem muito bem atrair a atenção de qualquer pessoa. No entanto, as razões para que isso aconteça são controvérsias. Ela é uma linda modelo; ele, um rapaz que vive no escuro para que ninguém o veja e se assuste… Eles se conhecem num cruzeiro luxuoso que zarpa de Miami a São Paulo, numa situação pra lá de desagradável. Sendo salva por Adam, Belle sente-se na obrigação de agradecê-lo pessoalmente – será que estão preparados para julgar e serem julgados por sua aparência?
   Leio Meg Cabot desde que estava na pré-adolescência. Ela sempre fez com que eu me divertisse com suas histórias, me ensinou que a literatura é universo lindo para se viver. Esse conto não conseguiu transmitir a mim a sensação de que a história era real, que poderia acontecer. Ficou aquele pensamento de que se talvez fosse um pouco maior a história, melhor as personagens estariam inseridas no mundo que imita a realidade.

— (…) Ficou tão preocupado de eu não gostar de você pela 
sua aparência que nem me deixou vê-lo.
— Ora essa, e eu tinha razão, não tinha? No segundo 
em que viu meu rosto, você desmaiou. 
(CABOT, Meg. O Livro das Princesas, A Modelo e o Monstro, pag. 56)

   Paula Pimenta, autora brasileira conhecida pelas séries Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série, escreveu Princesa Pop, baseado no conto Cinderela.
Paula Pimenta, autora de Princesa Pop
  Com muita cautela e amarrando todos os pontos, Paula Pimenta conta-nos a história de Cintia Dorella, uma garota de 17 anos que vive com a tia e divide seu tempo entre a escola e o trabalho como DJ à noite (o combinado é que chegue em casa sempre a meia-noite em ponto!). Um comunicado da diretora da escola muda o rumo da história de Cintia. A diretora proibiu celulares no ambiente escolar, e como Cintia conseguirá conversar com a mãe, que mora atualmente no Japão, agora que não poderá usar a tecnologia no único horário que o fuso horário permite? Numa ação desesperada, Cintia liga para o pai pedindo para que ele convença a diretora a mudar de ideia, porém o pai quer algo em troca. Quer que Cintia compareça à festa de aniversário de 15 anos das filhas de sua nova esposa. Coincidentemente, Cintia também será a DJ nessa festa, mas o pai não pode descobrir; ainda bem é festa fantasia! Na festa, conhece o famoso Fredy Prince, o cantor “príncipe” das adolescentes brasileiras. E ele gosta tanto dela, mesmo sem ter visto seu rosto, que está disposto a enfrentar a imprensa para conseguir vê-la novamente e poder entregar o tal sapatinho de “cristal” – um All Star customizado. Mas será que a bruxa má (a madrasta) e as bruxinhas (filhas da madrasta) irão deixar que eles se encontrem?
   Esse é o conto mais longo de todos que compõe essa antologia. Quem acompanha a Paula Pimenta sabe como essa escritora não poupa palavras para deixar o texto bem coerente e a história fluida, que consegue envolver o leitor e ainda o faz se identificar. Já li outros livros da autora (até agora suas duas séries), e espero continuar a ler mais. Ela faz qualquer história parecer mais que especial, e deu um novo sabor à famosa Cinderela.

— Mas quem sabe, né? Às vezes uma pessoa especial pode 
estar bem na nossa frente e não conseguimos enxergar pelo 
fato de ela estar escondida atrás de um disfarce, fingindo ser quem não é…
(PIMENTA, Paula. O Livro das Princesas, Princesa Pop, pag. 113)

   Lauren Kate, autora estadunidense que fez sucesso com Fallen, trouxe uma nova perspectiva para a história A Bela Adormecida, aqui sob o título Eclipse do Unicórnio. Mesclando o mundo fantástico com o real, Lauren Kate recria a profecia da Bela Adormecida.
Lauren Kate, autora de Eclipse do Unicórnio
   Aqui, em seu nascimento, a princesa Talia recebe os anjos e o Anjo da Justiça, agora conhecido como Darnile, presenteia o bebê com uma promessa de ferida fatal quando cobiçar o unicórnio alheio; o Anjo do Amor, que ainda não tinha dado seu presente, tenta moderar a situação, fazendo com que, quando a princesa se ferir com o chifre do unicórnio, não morrerá, mas cairá em sono profundo até que, em dia de eclipse e na presença de um unicórnio e algo mais, ela poderá acordar.
Percy é um garoto de Baltimore, nos EUA, que está com o coração partido porque a namorada decidiu ficar com outro garoto. Abatido, ele parte numa excursão escolar à França e, pensando que viajar seria o maior tédio e ainda mais triste por estar num país romântico, ele se descobre numa aventura fantástica ao encontrar um unicórnio belíssimo que atende pelo nome de Rose.
   O conto de Lauren Kate me fascinou. Sua escrita é delicada, pinta um cenário coerente e em poucas páginas conseguiu construir o que considerei uma boa história, numa boa dose de fantasia e realidade. Essa foi minha única leitura desta autora, e fico feliz por tê-la lido; espero conhecer suas outras obras.

Seu sonho parecia um conto de fadas. E aquele tipo de fantasia 
não se torna realidade. Não para caras como Percy. Entretanto, 
ele estava postado na beira do altar, curvando-se para uma menina 
linda e adormecida, medindo a distancia entre os lábios dela e os dele. 
(KATE, Lauren. O Livro das Princesas, Eclipse do Unicórnio, pag. 233)

  Patrícia Barboza, autora brasileira que encanta o público infanto-juvenil com as histórias das meninas de As Mais, escreveu Do Alto da Torre, baseado em Rapunzel.
Patrícia Barboza, autora de Do Alto da Torre
   Numa tentativa ousada de trazer o conto para a modernidade e preservando as características marcantes da Rapunzel, a personagem principal de Patrícia Barboza é a Camila Soares, do Rio de Janeiro, uma garota que desde os 11 anos foi proibida de cortar o cabelo por conta de uma promessa que sua tia fez. A tia aqui é a madrinha, porém não é má, e a torre da história é um nome carinhoso que Camila deu ao apartamento no 12º andar. Camila adora cantar e seu melhor amigo posta seus vídeos cantando Katy Perry na internet, sob o nome de Mila Tower. É sabido que no colégio muita gente gosta da Mila Tower, porém será que gostarão da Camila Soares também?
   Confesso que esperava mais dessa história. Ainda não tive a oportunidade de ler a série As Mais, e sempre tive curiosidade para saber o estilo de escrita da Patrícia, como suas ideias se punham no papel. Não me decepcionei, só tive a sensação de que faltava um tempero; talvez se a história fosse mais longa eu conseguisse sentir isso, ou talvez minhas expectativas fossem demasiadas altas, pois várias resenhas na internet elogiaram esse conto. Gostei do destino final que teve a cabeleira da Camila, achei interessante como a garota usou seus recursos para fazer o bem. A relação dela com sua tia me pareceu muito especial, conseguiu transmitir a preocupação, o carinho e amor entre as duas.

Antologia de contos modernos,
com Cabot, Pimenta, Kate e Barboza
— E como seria a princesa de verdade dos dias atuais?
— Ah, uma princesa sem frescura! — Ela levantou e começou a rodopiar pela sala. — Que corre atrás do que quer. Que é decidida, destemida. Desistir dos sonhos por causa do suposto príncipe, para poder ficar com ele? Princesas modernas nunca fazem isso! Se o príncipe quiser acompanhá-la e dar todo o apoio, ótimo. Até porque, se ele não entender as necessidades da princesa, não é príncipe, mas um tremendo de um sapo. E nada de chorar! O mundo é muito grande e cheio de gente para se gastar tempo chorando por causa de uma única pessoa. 
(BARBOZA, Patrícia. O Livro das Princesas, Do Alto da Torre, pag. 253)



Escrito por MsBrown
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domingo, 16 de novembro de 2014

Divã, de Martha Medeiros

Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, 
porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. 
Acho que sou promíscua, doutor Lopes. São muitas mulheres numa só, 
e alguns homens também. Prepare-se para uma terapia de grupo.
(MEDEIROS, Martha. Divã, pag. 11)

   Divã é a primeira novela escrita por Martha Medeiros, lançada em 2002. Consagrada pela crítica, recebeu os seguintes elogios da autora Lya Luft: “Gosto demais do que Martha escreve: toca em sentimentos sem ser sentimentaloide, é bem-humorada sem ser superficial, é irônica sem ser maldosa.”
  Divã conta a história de Mercedes, uma mulher com mais de 40 anos que procura a psicanálise. É casada, tem filhos, é professora particular de Matemática e parece viver uma vida comum, uma vida pacote de classe média, onde tudo aparentemente acontece sem novidades, sem exageros, sem grandes emoções. Mercedes quer se entender, quer dar a voz à mulher que existe dentro dela, que é mais ousada, mais faminta por novas vibrações. Lopes é seu psiquiatra, o homem a quem dirige todas as falas, que a ajuda a raciocinar quem é a Mercedes que quer se mostrar ao mundo.

Não estou vivendo perigosamente. Troque o perigosamente por intensamente, inconsequentemente, apaixonadamente. Não há perigo. Perigoso é a gente se aprisionar no que nos ensinaram como certo e nunca mais se libertar, correndo o risco de não saber mais viver sem um manual de instruções.
(MEDEIROS, Martha. Divã, pag. 61)

Divã, de Martha Medeiros
   O livro é narrado por Mercedes, no consultório, falando com Lopes. Por três anos manteve regular sua ida ao psiquiatra. Em três anos de sua vida e em cerca de 160 páginas, os leitores podem observar de perto a transformação de uma mulher ansiosa por sair da acomodação que vive com o marido e os filhos, e migrar para uma vida de aventuras, de novas ideias e sentimentos transbordantes que antes pensava que não ia sentir. É uma linha do tempo, porém com momentos de lembranças do passado, da mãe que morreu quando Mercedes era criança, dos namorados antigos, da sensibilidade aos barulhos do marido Gustavo que se tornaram quase indistinguíveis do silêncio, da sua relação com Mônica, sua amiga, e a narrativa da trajetória recente, dos amores recentes, da filosofia em constante mudança, da metamorfose do corpo e das impressões deixadas pela idade.
   Divã possui uma narrativa muito especial: nos leva ao consultório do psiquiatra Lopes, nos permite relaxar numa poltrona e ouvir o que essa mulher tem a dizer sobre sua vida. Conheci o filme primeiro e por ter gostado tanto, fiquei muito feliz ao saber que tinha sido originado a partir de um livro, que finalmente tive a oportunidade de ler na íntegra. Apesar de ser sobre uma mulher com seus 40 anos, é um livro sobre experiências e, portanto, várias faixas etárias podem aprender/refletir sobre o que foi escrito.
   Divã foi adaptado para o teatro e depois cinema, em 2009, com o filme homônimo, estrelado por Lilia Cabral, José Mayer como Gustavo, Alexandra Richter como Mônica e dirigido por José Alvarenga Jr. e para a televisão, todos com Lilia Cabral.

Vidas não são entregues em kits personalizados, compostos 
por dois sonhos, meia dúzia de projetos e uma única maluquice: 
essa costuma ser a munição que cada pessoa recebe ao nascer, 
para que a ordem seja mantida na sociedade. Eu aceito a parte que 
me toca, mas ninguém me impede de incrementar o dote.
(MEDEIROS, Martha. Divã, pag. 168)


Escrito por MsBrown
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sábado, 4 de outubro de 2014

O Dia em Que Nate Entrou Para a História , de Lincoln Peirce

   O Dia em Que Nate Entrou Para a História (Big Nate in a Class By Himself), de Lincoln Pierce, lançado em 2010 nos Estados Unidos, é mais uma história sobre um garoto que gosta de criar tirinhas e que apronta muito na escola ou onde estiver. No estilo Diário de Um Banana, e recebendo a aprovação do próprio Jeff Kinney “Nate é muito engraçado, um sucesso”, o primeiro volume da série traz muitas risadas, escrita leve e rápida e vários desenhos divertidos.
O Dia em Que Nate Entrou Para a História
de Lincoln Peirce
   Após abrir um biscoitinho da sorte com os dizeres “Hoje você vai superar todos os outros”, Nate sabe que seu dia será espetacular. O que ele não esperava é que quase tudo desse errado, mas mesmo assim continuou a procura por aquilo que o faria superar todos os outros. Com a companhia fiel de Francis e Teddy, as aventuras do menino de cabelo espetado que sempre é mandado à sala de castigo estão apenas começando.
   Gostei do livro porque não é pretensioso. Fala sobre coisas que as crianças gostam de fazer, de brincar com os amigos e tentar se destacar no meio estudantil, através da comédia. Esses livros, "romances em quadrinhos" que estão cada vez mais conquistando as pessoas, são exclusivos para diversão. Diferente da série As Aventuras do Capitão Cueca, esses novos romances em quadrinhos são sobre meninos e meninas normais, que frequentam a escola, têm amigos, têm sonhos e possuem imaginação hiperativa, porém no universo da ficção que mais se assemelha à vida real.
   O Dia em Que Nate Entrou Para a História é uma ótima leitura para quem precisa relaxar um pouco. Embora dedicado ao público alvo mais infantil, todas as idades podem se divertir com as aventuras desse menino de cabelo espetado que, em primeira instância, terá que superar todos os outros.

A minha SORTE é que é maravilhosa. O dia de hoje parecia que 
ia ser uma chatice e de repente deu a maior virada! (...)
- Superar todos os outros? - pergunta ele. - Superar os outros EM QUÊ?
- Sou um homem de muitos talentos. Pode ser qualquer coisa!
(PEIRCE, Lincoln. O Dia em Que Nate Entrou Para a História, pag. 71-72)

Escrito por MsBrown
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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Fala Sério, Pai!, de Thalita Rebouças

Pais, a realidade é dura. Somos nada, somos apenas um 
parque de diversões momentâneo enquanto não chega ela, 
a verdadeira rainha do lar, a dona da banca, a estrela da novela, 
a pessoa mais importante na vida dos seus filhos: a mãe. 
(REBOUÇAS, Thalita. Fala sério, pai!, p. 34)

   Fala Sério, Pai!, de Thalita Rebouças, lançado em 2009, é um dos livros mais deliciosos de ler que já tive o prazer de adquirir. Nenhuma página se passa sem uma risada, sem uma visão engraçada da realidade da convivência entre pais e filhos. 
   Neste volume, parte de uma série de outros 5 livros, Thalita Rebouças narra pelos olhos de Armando, o pai da já famosa Malu, as aventuras dessa dupla pai-filha desde a primeira crônica de um sopro de vida: o nascimento de Malu. A seguir, cada capítulo descreve um acontecimento de um ano da vida dela. Na maternidade, o primeiro amor, o corte de cabelo, aquele em que meninos são bobos, aquele em que Armando fez papel de pai-mico, ih, a madame Silicone, o papai meste-cuca e outros, até chegar no voo solo, quando Malu sai de casa para viver suas aventuras agora sem ele, o melhor pai do mundo. Malu também nos permite ver o mundo como ela, na segunda parte do livro. E percebemos, tamanho humor, que tal pai tal filha!

Fui para perto do berço e não conseguia parar de 
olhar para Maria de Lourdes. Absolutamente hipnotizado, 
idiotizado, encantado. Ela era perfeita, tinha saúde e muito, 
muito cabelo. Extasiado, constatei que aquele, sim, era o melhor 
gol da minha vida. Um gol de placa. 
(REBOUÇAS, Thalita. Fala sério, pai!, p. 21)

Fala sério, pai!, de Thalita Rebouças
   Armando adora a Maria de Lourdes, que após alguns anos vira só Malu, para os íntimos exceto a mãe, mas às vezes essa menina que nasceu com cara de joelhinho esquisito e que abria o maior berreiro em muuuuitas ocasiões o deixa sem saber o que fazer. Pai de primeira viagem, Armando aprendeu muito sobre crianças, e sobre meninas, quando se viu no papel de homem mais engraçado do mundo, pai mais legal... mas só durava quando estava só; era só a mãe da menina chegar e, bum!, ele não era ninguém. Armando narra suas aventuras como pai-mico, pai que não sabe tudo e que não sabe dizer "não", porém não perde o posto de pai mais divertido. Malu passa por todas as fases de sua vida tendo o pai ao seu lado, seja para aprontar travessuras junto, seja para receber broncas, seja para ouvir conversas de seu pai com sua mãe sobre ela cheias de indignação. 
   Já me considero fã da Thalita Rebouças pois acompanho suas crônicas lançadas no site da Veja Rio, clique aqui, e não há texto dela que não me atinga lá onde está guardado meu bom humor. Fala Sério, Pai! foi o primeiro livro dela que li, e adorei. O humor dessa carioca é transcrito perfeitamente no papel, impossível não arrancar umas risadas de qualquer leitor, seja pai, seja filho.

Meu pai estava tão frágil, tão tristinho… tão menino. E eu me senti na 
obrigação de tomar conta do meu pai-menino naquela hora. Muito 
estranho esse negócio de virar pai dos nossos pais. De repente, do nada, 
parece que eles são seres indefesos, que precisam mais da gente do que a gente deles. 
(REBOUÇAS, Thalita. Fala sério, pai!, p. 253)

Escrito por MsBrown
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Minha Vida Fora de Série, 2ª Temporada, de Paula Pimenta

Se quisesse uma Nicole, eu teria conseguido há muito tempo. 
Igual a ela, eu já tinha encontrado várias outras… Mas não era 
isso o que eu queria. Eu queria uma Priscila. Eu queria a Priscila. 
(PIMENTA, Paula. Minha Vida Fora de Série, 2ª Temporada, pag. 146)

   Paula Pimenta dá continuação à história de amor entre Priscila e Rodrigo depois de um hiato, em sua segunda temporada. Agora os protagonistas estão mais velhos, com seus 15-17 anos, e as questões com que lidam se tornam mais complicadas e intensas. Em Minha Vida Fora de Série — 2ª Temporada, lançado em 2013, cada capítulo é um preparo para o leitor ansiar ler o próximo e, o melhor do livro é que o leitor não precisa esperar pela semana seguinte para saber como será o próximo episódio dessa história.
   O cenário varia entre Estados Unidos e Brasil. Na viagem de Priscila à Disney, além de se divertir no parque ela comete um pequeno deslize que poderia estragar seu
Minha Vida Fora de Série, 2º volume,
de Paula Pimenta
relacionamento com Rodrigo; nos EUA, ela conhece Patrick, o filho da proprietária da agência de Turismo, que é o charme em pessoa. Quando volta ao Brasil, para Belo Horizonte, não consegue parar de pensar nele, assim afastando seu namorado.

Ele estava totalmente certo… Eu vinha dando uma importância muito grande ao que tinha acontecido, quando na verdade deveria encarar aquilo apenas como um encanto a mais da viagem. Como se tivesse sido algo efêmero, como uma miragem que nos deixa em dúvida se aconteceu na realidade ou se foi apenas a nossa mente que fantasiou. 
(PIMENTA, Paula. Minha Vida Fora de Série, 2ª Temporada, pag. 129)

   Após muitos conselhos e destino, Priscila percebe que tem que salvar sua relação de ficar ainda mais fria. Como está no segundo ano do Ensino Médio agora, tem que estudar para o vestibular, participa do Grêmio, do Conselho Escolar e tudo isso fica no caminho entre ela e Rodrigo, embora não seja sua intenção.
   Rodrigo, por sua vez, em sua viagem à Bahia, passou a ser o baterista de uma banda, quando tocavam em barzinhos. A vocalista da banda logo se interessou por ele, embora Rodrigo ficasse só pensando na Priscila. Aí se segue uma pequena confusão que o deixou até desorientado, e que fortaleceu o que sentia por sua namorada. De volta a Belo Horizonte, ele e Priscila tentam consertar a situação.
   O livro é narrado em primeira pessoa, por Priscila e Rodrigo, embora o garoto narre apenas alguns capítulos. Isso dá um diferencial para a história, ficamos conhecendo-a pelos dois lados. Temos novamente os emails, as mensagens de celular, os capítulos que começam com uma frase das séries de televisão que Priscila assiste e listas de músicas. Escrito com cuidado, com capítulos curtos e todas as pontas atadas, com personagens masculinos que realmente parecem homens, Paula Pimenta faz qualquer leitor estar em Belo Horizonte observando a vida dessas personagens tão queridas em histórias que poderia acontecer com qualquer adolescente brasileiro.
   Para quem conhece a série Fazendo Meu Filme e está com saudade das personagens de lá, a Priscila e o Rodrigo também fazem parte da vida deles e neste livro há spoilers sobre o primeiro livro da outra série.

Eu já tinha percebido que, quanto mais ficávamos juntos, 
mais queríamos ficar… E o contrário também acontecia. 
Simplesmente nos acostumávamos a ficar longe. Passávamos 
a não nos importar tanto com a distância. Não a física; afinal, 
continuávamos a nos ver todos os dias no colégio. Mas era como 
se fôssemos amigos que se beijavam. Aliás, que nem se 
beijavam mais tanto assim… 
(PIMENTA, Paula. Minha Vida Fora de Série, 2ª Temporada, pag. 257)

   Eu sempre fico com o pé atrás quando se trata da Paula Pimenta, mas agora que já li a maioria de seus livros, acho que me livrarei disso. Acontece que ela escreve muito bem, simples, e suas histórias também são simples, do cotidiano de um adolescente. Sempre a espero cair no clichê, ficar sem graça, sem causar emoção, e estou ERRADA a todo o momento. Acho que a Paula é a escritora brasileira que mais me faz sentir algo, ela conecta seus personagens com os nossos pensamentos, anseios e medos. Seus livros são caprichados, lindos, e para a alegria dos editores, já viraram Best-sellers! Tenho que reconhecer que a Paula Pimenta precisa escrever mais e mais livros, ela tem que continuar a encantar os leitores, a emocionar as pessoas.

Escrito por MsBrown
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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Adeus, Mr. Chips, James Hilton

    Uma carreira decente, decentemente encerrada; três vivas para o velho Chips, gritaram todos naquele ruidoso jantar de fim de ano letivo.
    Com efeito, três vivas; mas outros mais viriam, um epílogo insuspeitado, um bis dedicado a um auditório trágico.
(HILTON, James. Goodbye, Mr. Chips, pag. 13)

   Mr. Arthur Chipping é um professor em Brookfield que mora na pensão de Mrs. Wickett. Já velho, porém não doente, relembra seus dias na escola, sempre falando Latim e fazendo piadas para seus alunos homens. Adeus, Mr. Chips (Goodbye, Mr. Chilçlops), de James Hilton, escrito em 1933 na Inglaterra, é um livro que diz adeus a uma das pessoas que viu a escola nascer e se desenvolver, passar por bons e maus momentos. É sobre um homem que viveu o bastante para presenciar a Guerra Franco-Prussiana, a I Guerra Mundial e ensinar gerações de alunos.
  James Hilton criou um homem simpático, um livro inspirador. De poucas páginas, linguagem simples, foi lido rapidamente e deixou algo especial. Uma vida, vista por outros um tanto quanto solitária, na verdade foi vivida para os outros, para o divertimento de jovens alunos, da mulher, Katherine, com quem se casou em certo momento, a mulher que na véspera de casamento disse “Goodbye, Mr. Chips”.
Adeus, Mr. Chips, o livro
aqui resenhado

 — Este é um momento solene, tu compreendes... O nosso último adeus. Eu me sinto mais ou menos assim como um aluno no primeiro dia de aula contigo. O que tenho não é medo, note bem, mas apenas respeito, muito respeito. Devo dar-te senhoria? Ou o direito será dizer “Mr. Chips?” Acho que “Mr. Chips” fica melhor. Adeus, então. Adeus, Mr. Chips...
(HILTON, James. Goodbye, Mr. Chips, pag. 29)

   Tendo começado a lecionar em Brookfield em 1870, Mr. Chips, assim apelidado, é uma homenagem do autor ao seu pai, que foi professor, e um tributo à profissão de lecionar. Escrito em apenas quatro dias por um homem com trinta e três anos, Adeus, Mr. Chips foi primeiro lançado na Inglaterra em 1934 e quando aterrissou o território americano fez tanto sucesso que estabilizou o autor por toda a sua vida.
   Em 1939 foi lançado o filme de mesmo nome, dirigido por Sam Wood e estrelado por Robert Donat, como Mr. Chips, Greer Garson como Katherine, recebendo Oscar por Melhor Ator e sendo indicado no mesmo prêmio para Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Trilha Sonora e Melhor Edição de Filme.

Pela primeira vez em sua vida Chips se sentiu necessário 
— e necessário a algo que estava muito perto de seu coração. 
Não há no mundo sensação mais sublime e por fim ele a tinha.
(HILTON, James. Goodbye, Mr. Chips, pag. 92)    

Escrito por MsBrown
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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri

TIÃO – Ninguém vale nada, pai!
OTÁVIO – Como você tem medo!
TIÃO (irritado) – Mas medo de que, bolas!
OTÁVIO (imperturbável) – De ser pobre… da vida da gente!
TIÃO (com um gesto de quem afasta os pensamentos) – Ah! Tou é nervoso… tou apaixonado, pai… Não liga, não! 
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 42)

  Eles Não Usam Black-tie é uma peça de teatro brasileira escrita em 1955 por Gianfrancesco Guarnieri. De acordo com Delmiro Gonçalves, a peça "foi uma das mais sérias e melhores tentativas de uma dramaturgia urbana brasileira". É uma história despretensiosa sobre a vida de alguns exemplares da classe de operários de uma favela carioca nos anos 1950.
   Em tempos de ocorrer uma greve dos metalúrgicos, com o total apoio de Otávio, Tião, seu filho, descobre que vai ser pai do bebê de Maria. Assim, o jovem de aproximadamente 20 anos quer estabilidade financeira para sustentar sua pequena família e poder sair do morro. Tião foi criado pelos padrinhos, na cidade, e servia como babá para os filhos deles. Nunca se adaptou a vida no morro, sendo operário, tendo que fazer greve para que o salário aumente em mixarias. Tião observa a vida corrida e pesada de Romana, sua mãe, sempre tendo que cuidar do barraco, de lavar roupas para outras pessoas e cuidar de seu marido e dois filhos, e não quer que o mesmo aconteça a Maria.

TIÃO – (…) Nesse mundo o negócio é dinheiro, meu velho. 
Sem dinheiro, até o amor acaba! Pois eu vou sê feliz, vou tê amo, 
e vou tê dinheiro, nem que pra isso eu tenha de puxá saco de meio mundo! 
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 68)

   Tião trabalha na mesma fábrica que seu pai, e com a greve, se aderir, há a possibilidade de ganhar aumento ou ser despedido. Se não aderir a greve, será visto como pelego e traidor, porém poderá se manter estável na fábrica. Em poucas páginas, cerca de 100, as dúvidas e medos de Tião se apercebem pelas falas e maneiras, muitas vezes sob palavras de confiança, escondidas e abafadas no meio de outras personagens que a ideologia de correr atrás dos direitos é o motor da vida.
   Sempre quis ler Eles Não Usam Black-tie. Lembro que o encontrei na biblioteca da escola de Ensino Médio que frequentei porém nunca fui tentada o bastante para pegá-lo emprestado. Agora adquiri um exemplar e consegui ler e me emocionar com as personagens, com seus medos, ideologias, sentimentos, e principalmente no final, que achei que acabou como deveria, ficou aquela sensação estranha de muita luta emocional e pouca conquista, bem semelhante à realidade. A peça é para ser popular, foi escrita como fala o povo, e é sobre as lutas do povo. É sobre as pessoas que não usam black-tie, mas que acordam tão cedo para trabalhar e ter um tempinho à noite para ser feliz, ao som de um samba tocado por Juvêncio, um manco, numa noite chuvosa...
Eles Não Usam Black-tie, de
Gianfrancesco Guarnieri

Nosso amor é mais gostoso,
Nossa saudade dura mais
Nosso abraço mais apertado
Nós não usa as "bleque-tais".

Minhas juras são mais juras
Meus carinhos mais carinhoso
Tuas mão são mãos mais puras,
Teu jeito é mais jeitoso...
Nós se gosta muito mais,
Nós não usa as "bleque-tais"...
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 24)

   A peça possui 3 atos e 6 quadros, e é ambientada no barraco de Romana. Foi representada pela primeira vez em 1958, no Teatro de Arena de S. Paulo, com direção de José Renato e performada por Miriam Mehler como Maria, Gianfrancesco Guarnieri como Tião, Lélia Abramo como Romana e Eugênio Kusnet como Otávio. Em 1981, foi lançado o filme com mesmo nome dirigido por Leon Hirsziman, e estrelado por Gianfrancesco Guarnieri como Otávio, Fernanda Montenegro como Romana, Carlos Alberto Riccelli como Tião e Bete Mendes como Maria, com música tema de Adoniram Barbosa, Chico Buarque de Hollanda e Gianfrancesco Guarnieri. Leon Hirsziman recebeu o prêmio FIPRESCI e o Grande Prêmio Especial do Juri no Festival de Veneza, o prêmio Grand Coral no Festival de Havana, Guarnieri recebeu o troféu APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) por Melhor Ator, e ganhou o Margarida de Prata. O filme recebeu atenção especial de John D. French, um professor do Departamento de História da Duke University, que pesquisou a representação social do filme e a verossimilhança com a classe operária brasileira dos anos 50 e 70, clique aqui.
   Guarnieri identifica sua obra como "uma visão romântica do mundo. Pressupõe uma série de valores básicos, imutáveis, através dos quais os problemas surgem, estourando os conflitos, os homens se debatem, mas tudo chegará a bom termo graças a uma providencial ordem natural das coisas, atingindo-se no tempo a harmonia geral esperada, em virtude de uma tomada de 'consciência'. Black-tie, no fundo, é uma peça idealista" que "reflete corretamente muitos aspectos da realidade brasileira".
   Penso que o sucesso da obra se dá por sua sinceridade, por sua representação sócio-política brasileira, pela escrita coloquial e por todo o sentimentalismo que as falas de Maria e Tião se inundam, contrapostas pelas falas de vivência dura de Romana e ideologias políticas de Otávio. É uma história atemporal.

ROMANA – É a verdade, e da verdade ninguém escapa, meu nego. 
E depois, cadeia foi feita pra ladrão, caixão pra defunto. 
Pra que ficá enganando os outros. É o fim mesmo. É ou não é minha filha? 
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 36)

Escrito por MsBrown
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domingo, 3 de agosto de 2014

Focus, de Arthur Miller


No espelho do banheiro, o banheiro que usava há quase sete anos, 
estava vendo o que podia ser adequadamente descrito como 
a cara de um judeu. Realmente, um judeu entrara em seu banheiro. 
Os óculos fizeram exatamente o que temia que fizessem ao seu rosto, 
mas agora era pior, porque era real.
(MILLER, Arthur. Focus, pag. 32)

    Focus foi o romance de estreia do escritor estadunidense Arthur Miller, mais conhecido por suas peças de teatro. Lançado em 1945, trata do anti-semitismo praticado em Nova York, nos EUA, no final da Segunda Guerra Mundial.
  Lawrence Newman é um empregado da Company, uma empresa anti-semita muito respeitada no país. Mora com a mãe e não se deixa abalar com os problemas alheios, como uma mulher gritando no meio da noite, clamando pela polícia. Seu vizinho, Fred, é um homem que apoia a limpeza da cidade — com “limpeza”, leia-se “expulsão dos judeus que ali vivem”. O único judeu do quarteirão, Mr. Finkelstein, é um vendedor de jornais que não interfere de maneira negativa os outros moradores, apesar de ser tratado como “criminoso” por ser judeu.
   A vida de Newman ficara um tanto monótona e acomodada, depois de ter participado da guerra e ser responsável pela morte de um alemão. Agora possuía um emprego como recrutador na Company. Quando seu chefe o chama para uma conversa, tudo como conhecia começa a mudar, ou melhor, todas as máscaras começam a se desvanecer.
   O chefe observa que Newman contratou uma mulher inadequada para a profissão de datilógrafa, e esse erro era devido ao fato de Newman não enxergar bem. Ao passar no oculista e experimentar em casa os novos óculos, Newman se espanta com o que enxerga no espelho. Um judeu. Newman é descendente de ingleses e é cristão, porém seu rosto se assemelha a de um judeu quando usa óculos.
   De início, tenta não dar muita importância ao fato. No entanto, é despedido da Company porque sua aparência levou seus superiores a questionarem sua identidade. E não para por aí. Na procura por um novo emprego, é sempre visto como um judeu; seus vizinhos começam a estranhá-lo e a Frente Cristã passa a tê-lo e à sua mulher Gertrude Hart e ao Mr. Finkelstein como alvos para uma limpeza.
   O que parecia simples se torna o maior problema que lhe fora submetido: a identidade alheia, o ser judeu.

Focus, de Arthur Miller
   Então, que diabos poderia fazer para mostrar a essa gente que ainda era Lawrence Newman?
   O rosto. Parou junto a um poste de luz numa esquina. Mas o seu rosto não era ele. Ninguém tinha o direito de menosprezá-lo por causa do rosto. Ninguém! Ele era ele, um ser humano com uma biografia definida, e ele não era esta cara que parecia nascida de outra biografia, estranha e suja. Estavam querendo transformá-lo em duas pessoas! Olhavam para ele como se fosse culpado de alguma coisa, como se fosse feri-los! Não podiam fazer isso! Que não ousassem fazer-lhe aquilo, pois não era outra pessoa senão Lawrence Newman…!
(MILLER, Arthur. Focus, pag. 72)

   Demorei algum tempo para terminar de ler o livro, por conta da vida universitária. Mesmo lendo-o de gole em gole, consegui me conectar com a história e dizia a algumas pessoas que estava lendo um livro incrível. Quando comprei Focus, não fazia ideia do enredo. Não havia nada escrito na contracapa e também não havia orelhas. O nome do autor me impeliu a adquirir o livro, pois já tinha lido sua peça de teatro ganhadora do prêmio Pulitzer Morte de um Caixeiro Viajante, resenha aqui, e não me arrependo. Mergulhei numa história com o tema que tanto é analisado mas que foi escrito de uma maneira diferente na época em que tudo estava acontecendo. A audácia do autor foi imensa ao criar um personagem cristão e descendente de ingleses que, ao usar óculos, tinha a aparência de um judeu e por isso passou a sofrer preconceito. Colocou os leitores na pele da personagem principal: e se começassem a nos enxergar pelo que não somos e praticassem violência conosco por conta disso? Curiosidade: Miller era filho de um casal de imigrantes judeus polacos.
   A estratégia de Miller me lembrou a estratégia de Bernardo Guimarães na criação de A Escrava Isaura, clique aqui, uma escrava branca linda. Guimarães sabia que as mulheres de classe média leriam o livro e a maneira para fazê-las entender a escravatura como algo abominável, colocando uma escrava branca, que se assemelhava a elas, porque ler sobre uma escrava negra sofrendo não seria nada inédito e não criaria empatia.
   Em 2001, foi lançado o filme baseado em Focus, dirigido por Neal Slavin e estrelado por William H. Macy como Lawrence Newman, Laura Dern como Gertrude Hart, David Paymer como Mr. Finkelstein e Meat Loaf Aday como Fred.
  A linguagem é fácil, fluida. O livro possui pouco mais que 200 páginas de vários momentos de tensão. Minha opinião é que Arthur Miller escolheu a história certa para estrear no mundo do romance literário, e deixa suas palavras flutuando na luta eterna dos judeus. Acontecimentos recentes provam que 1945 permanece mesmo em 2014.

— (…) O senhor olha para mim e não me vê. Vê outra coisa. 
Pode me dizer o que é? É isto o que não entendo. Contra mim 
o senhor não tem nada, é o que diz. Então, por que quer me 
tirar daqui? O que é que vê que o deixa tão furioso quando olha para mim?
(MILLER, Arthur. Focus, pag. 166)


Escrito por MsBrown
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sábado, 19 de julho de 2014

Moise e o Mundo da Razão, de Tennessee Williams

Moise e o Mundo da Razão,
de Tennessee Williams
— É que o meu mundo não é o mundo de vocês. Seria uma insuportável banalidade proclamar que cada um de nós é o habitante único de seu mundo particular. De forma que eu não conheço o mundo de vocês e vocês não conhecem o meu. A mim, é claro, me parece perfeitamente evidente que o mundo de vocês é, relativamente, um mundo que contém certa dose de razão.
(WILLIAMS, Tennessee. Moise e o Mundo da Razão, pag. 22)

   Moise e o Mundo da Razão (Moise and the World of Reason), de Tennessee Williams, é o primeiro romance escrito pelo autor estadunidense, lançado em 1975. Conhecido por suas peças de teatro, mais uma vez os temas que o marcaram voltam à tona em uma história sobre homossexualidade, perda, devaneios e lembranças do passado.
   O livro é narrado pela personagem que se designa como “ilustre escritor fracassado”, e que não cita seu nome. É um homem de trinta anos que tem como amante Charlie, um homem de vinte anos, e possui grande carinho por Moise, uma pintora que, logo no início da história, faz seu discurso sobre estar deixando o mundo da razão. Conhecemos Lance, o primeiro amor do escritor, “um turbilhão negro sobre o gelo”, que morreu patinando no gelo e deixou ao escritor a parte do armazém em que moravam, “o retângulo com ganchos”.

Durante treze anos não houve nada de grande 
importância na minha vida além daquele patinador no gelo, 
de Moise e deste meu costume de procurar escrever as coisas 
em detalhe numa longa série de cadernos Blue Jay.
(WILLIAMS, Tennessee. Moise e o Mundo da Razão, pag. 57)

   Agora, escrevendo nos cadernos Blue Jay e nas cartas de rejeição das revistas e editoras, sentado no BON AMI, um caixote, o “ilustre escritor fracassado” relata como Moise fez seu discurso e o efeito dele no restante do livro. A história é dividida em quatro capítulos; penso eu que se houvessem capítulos menores e talvez fosse dividida em quatro partes, seria mais interessante e a leitura mais dinâmica, mais envolvente.
   Tendo lido outros livros do autor, esperava que este em questão me emocionasse mais, assim como Um Bonde Chamado Desejo, por exemplo. A história não me tocou, exceto em raros momentos. Pareceu-me uma aventura sem nexo, retalhos de acontecimentos que a personagem principal descrevia, um começo inesperado com um final inesperado, e não no bom sentido. Tennesse Williams deixou Moise e o Mundo da Razão como sua despedida do mundo literário. O simbolismo de sua obra deve ser mais estudado, e recomendo às pessoas que, se abrirem a mente, possam desfrutar dessa história que coloca em questão o mundo da razão.

— Eu diria que na sua idade já devia ter aprendido que tem de suportar uma porção de coisas desagradáveis.
— Sim, inclusive a mim mesmo. Me lembro de que uma vez o animador de um programa de TV me perguntou: “O senhor gosta de si mesmo?” Respondi com um olhar vazio e um silêncio, e ele insistiu: “O senhor adora a si mesmo?”, e finalmente respondi: “Bom, eu estou amarrado a mim mesmo e tenho de me aturar de qualquer maneira”.
(WILLIAMS, Tennessee. Moise e o Mundo da Razão, pag. 109)

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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Extraordinário, R.J. Palacio

NÃO JULGUE UM LIVRO MENINO PELA CAPA CARA

   O que leva uma criança a adorar usar um capacete de astronauta, mesmo em pleno verão? O que leva o diretor da escola Beecher Prep a criar um “comitê de boas vindas” que favorece apenas um aluno? Pais superprotetores, outros negligentes, pessoas extraordinárias sem ninguém para ver e um menino que não passa despercebido em lugar algum: tudo isso e mais um pouco se relaciona de maneira maravilhosa no primeiro livro de R.J. Palacio, Extraordinário (Wonder), lançado em 2012 nos Estados Unidos.
   August Pullman é a criança em questão. O centro das atenções em casa, na escola e onde quer que vá. Seu rosto, incomum, é capaz de despertar gritos de outras crianças e reações quase repulsivas de adolescentes e adultos. Ingressante do quinto ano na Beecher Prep, calouro na situação de estudar em escola pois passou os outros anos tendo aulas em casa, August precisa de muita paciência e perseverança para enfrentar o início do Ensino Fundamental II, o que é um pouco apavorante para qualquer criança. August tem disostose bucomaxilofacial, uma anormalidade facial que o submeteu a várias cirurgias.

De todo modo, não é que eu me importe com o modo como as pessoas reagem a mim. Já disse um zilhão de vezes: estou acostumado com isso a esta altura. Não deixo que me incomode. É como quando você sai e está chuviscando. Você não calça galochas por causa de um chuvisco. Nem sequer abre o guarda-chuva. Você anda na garoa e mal percebe que o cabelo está ficando molhado.
(PALACIO, R.J. Extraordinário, pag. 213-214)

Livro de estreia de R. J. Palacio,
Extraordinário
   O menino é muito amado em casa pelos pais e pela irmã Via. Adora sua cachorra Daisy, pois ela não tem repugnância dele. Na escola, Summer é uma das garotas que se torna sua amiga por opção, e Jack Will não consegue resistir a esse menino divertido. Julian, porém, é um dos alunos que escolhe tornar a vida de August mais difícil. Imagine o primeiro dia de aula numa escola nova. Imagine que tudo seria melhor se você tivesse amigos imediatamente. Agora imagine uma criança nessas condições que ainda por cima tem um rosto “anormal”. Imagine, sobretudo, os olhares de todos que o cercam. Essa é a vida de August que tenta deixar o cabelo mais grande para que seu rosto não apareça muito, que anda sempre de cabeça baixa para não ser notado e que, quando criança, usava um capacete de astronauta sempre, porque, como um dos personagens reflete, as pessoas achavam mais normal uma criança estar o tempo todo de capacete do que ver o rosto de August.
  Esse livro é incrível. Os capítulos são curtos, a história fluida, personagens bem construídos, um teor melancólico sendo quebrado de instante em instante por momentos de gentileza. É divido em partes, sendo estas narradas por August, Via, Summer, Jack, Justin e Miranda, com frases de livros, músicas e outros, sendo interessante ver o desenrolar dos acontecimentos sob várias perspectivas. É ótimo ver como August enfrenta os desafios, como as pessoas que o amam agem e tudo o que eu mais queria era que o final fosse feliz. A Veja.com exemplifica a história na seguinte frase: “O ponto de vista de uma criança que, ciente de sua estranheza e de seu deslocamento no mundo, cria um manifesto em favor da gentileza”. Eu não poderia concordar mais. E não me importa que o discurso do Sr. Bufanza (o diretor da escola) na formatura seja um tanto clichê. Valeu a pena ter lido!

August é o Sol. Eu, a mamãe e o papai giramos em volta dele. O restante de nossa família e de nossos amigos são asteroides e cometas flutuando ao redor dos planetas que orbitam o do Sol. O único corpo celestial que não gira em volta de August, o Sol, é Daisy, nossa cadela, e isso porque, para seus olhinhos caninos, o rosto do August não é muito diferente do rosto de qualquer outro ser humano. Para Daisy, todos os rostos são parecidos, chatos e pálidos como a Lua.
(PALACIO, R.J. Extraordinário, pag. 89)

    No site da R.J. Palacio, a autora conta sua inspiração. A inspiração é uma criança, menina, que estava perto de uma sorveteria em certa ocasião. O filho de três anos da autora, ao vê-la, começou a chorar muito alto. A menina tinha uma anormalidade craniofacial. Palacio se afastou porque não queria magoar os sentimentos da menina, ao perceber que seu filho se assustara. Na mesma noite, a música Wonder, de Natalie Merchant, tocou na rádio. Assim nasceu o livro Extraordinário. Um livro de um menino que, apesar de passar pela mesma situação quase todos os dias, às vezes ainda se surpreende com as pessoas.

Doctors have come from distant cities just to see me
Stand over my bed, disbelieving what they're seeing
They say I must be one if the wonders of god's own creation
And as far as they see they can offer no explaination

(MERCHANT, Natalie. Wonder)
   
Escrito por MsBrown
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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Doce Vingança, de Nora Roberts

Queria um drinque, não o café e o chá que sempre eram servidos, mas um vinho. Apenas um copo de vinho gelado. Mas nenhum vinho era permitido em Jaquir, enquanto o estupro sim, pensou ela, ao encostar um dedo no rosto dolorido. Surras e véus, chamadas para a oração e poligamia, mas não uma gota de Chablis ou um cálice de Sancerre.
(ROBERTS, Nora. Doce Vingança, pag. 29-30)

   A Princesa Adrianne é uma criança em Jaquir, um país no Oriente Médio. Lá, é acostumada às mulheres no harém, sempre falando sobre sexo, compras e jóias, mulheres que, submissas ao homem, devem usar abaayas para não tentá-los. Mas ela nunca pode se acostumar à constante repressão do homem que, além de seu pai e Rei de Jaquir, desposou a linda estrela de cinema Phoebe Spring entregando a ela o famoso colar O Sol e a Lua, de valor inestimável, com a promessa de uma vida exótica e bela longe daquilo que a atriz conhecia, apenas para trocá-la por outras mulheres e amaldiçoá-la por ter dado à
Doce Vingança, de Nora Roberts,
lançado em 1988
luz uma filha, Adrianne, e não um filho.
   O ponto inicial de Doce Vingança (Sweet Revenge), de Nora Roberts, lançado em 1988, é a infância turbulenta por qual Adrianne vive, no castelo em Jaquir, aprendendo que a mulher, de cabeça baixa, deve dar bons filhos ao marido e ser uma serva de Alá, isso porque, se fizer diferente, a polícia religiosa a castigará. Conhecendo as jóias desde criança, ela sabe perfeitamente diferenciar uma falsa de uma verdadeira. Sua obsessão pelo O Sol e a Lua crescem à medida que, após fugir de Jaquir para os Estados Unidos com a mãe quando tinha oito anos e testemunhar a volta decadente da atriz Phoebe Spring ao cinema, a mãe droga-se cada vez mais e é mais ainda manipulada por agentes. Adrianne sente que precisa deste colar, que o Rei confiscou da mãe, para sua vingança.
   Phillip Chamberlain, um inglês, agora é um agente da Interpol. Antes, fora um ladrão tão bem sucedido que levava uma vida confortável, e até propiciara à mãe uma vida melhor. Aposentado de seus roubos de jóias, ele tem a missão de encontrar O Sombra, o ladrão de jóias mais procurado pela polícia. O que Phillip provavelmente não esperava era encontrar Adrianne, a princesa, e apaixonar-se por ela, apesar da frieza e medo inicial que ela radia. Os dois, combinando conhecimentos acerca de jóias e ações, embarcam numa aventura muito bem descrita por Nora Roberts, onde há suspense, romance, cada cenário pintado meticulosamente para dar ao leitor a impressão de assistir bem de perto todos os acontecimentos.

— Mas O Sol e a Lua significa tudo. Não há nada que valha mais em Jaquir, não pelo valor monetário. Está além de qualquer preço. É uma questão de orgulho e força. Se sair das mãos da família real, haverá revolução, derramamento de sangue, o desmoronamento do poder. A inquietação nas fronteiras de Jaquir varrerá o país.
(ROBERTS, Nora. Doce Vingança, pag. 361)

   É uma história sobre família, sobre reconhecimento do amor e da paciência, o doce sabor da vingança que é capaz de alimentar boa parte da vida de alguém, e é uma história sobre não ser generalista. O que quer que as mulheres do harém sintam em sua realidade, o que quer que Adrianne tenha aprendido no mundo Ocidental, o que quer que a religião em Jaquir pregue ou as crenças cristãs, cada pessoa tem sua maneira de encarar a realidade, e muitas conseguem conviver e entender aquilo que outras não podem compreender.
   Lembro que tive esse livro em mãos durante alguns anos. Sempre me interessou, porém por algum motivo só agora consegui pegá-lo novamente e ler até o fim. Ainda bem que fiz isso! Devo confessar que Nora Roberts sempre me surpreende, não por ter surpresas durante o livro, mas pela sua maneira de escrever que, parecendo tão simples e despretensiosa, é capaz de marcar a história em meus pensamentos, e nos pensamentos de vários outros leitores. O livro é divido em três partes, com subtítulos seguidos de citações, sendo eles: O Amargo, O Sombra e O Doce.
   Recomendo o livro, pois, além do nome de Nora Roberts falar por si mesmo, tão reconhecimento que ela possui atualmente, é uma história inteligente, muito bem escrita, que abrange ambos o mundo ocidental e oriental, e é um ótimo lembrete do feminismo, o que isso significa de um lado do oceano e do outro.

Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plenamente os conflitos e dúvidas que a dominavam. Era princesa de uma terra que não era mais a sua. Era visitante num país que continuava a lhe ser estranho. Era uma mulher que tinha medo de ser uma mulher. Uma ladra que queria justiça.
(ROBERTS, Nora. Doce Vingança, pag. 252)


Escrito por MsBrown
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