"A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdadeira" Theodor Adorno

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Doce Vingança de Nora Roberts

"Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plenamente os conflitos e dúvidas que a dominavam."
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Feérica, de Carolina Munhóz

"As fadas existiam porque humanos ainda acreditavam em sua existência. Violet decidiu que já era hora de mostrar que eles tinham motivo para isso."
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Especial de Aniversário de Clarice Lispector: A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens."
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Biografia de Harrie Stowe

"Eu sinto que agora é o tempo em que mesmo uma mulher ou criança que sabem falar uma palavra de liberdade e humanidade é obrigado a falar..."
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terça-feira, 27 de agosto de 2013

A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro

Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, 
afirmo é que só digo a verdade. Não importa que me acreditem, 
mas só digo a verdade — mesmo quando ela é inverossímil.
A minha confissão é um mero documento.
(SÁ-CARNEIRO, Mário. A Confissão de Lúcio, pag. 17)

   A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, é um relato, como o personagem diz, inverossímil. Mas ele alega que é verdadeiro, apesar das “estranhezas” que talvez os leitores achem.
   Lançado em 1914, era de se esperar esse cuidado do personagem Lúcio em dizer tais palavras, até porque o que se encontra no livro não é algo que a sociedade facilmente aceita. Não é propriamente a homossexualidade que é tratada, mas uma hipótese que envolve o assunto. Uma hipótese muito interessante e não usual, devo dizer.
   A história se passa em Paris e em Portugal. No início, Lúcio avisa que já cumpriu sua pena de dez anos por ter matado Ricardo de Loureiro — mas ele não o matou e nunca se justificou; no entanto, sente que agora é a hora de deixar tudo claro e confessar sua inocência.

— O meu sofrimento mora, ainda que sem razões, tem aumentado tanto, tanto, estes últimos dias, que eu hoje sinto a minha alma fisicamente. Ah! é horrível! A minha alma não se angustia apenas, a minha alma sangra. As dores morais transformam-se-me em verdadeiras dores físicas, em dores horríveis, que eu sinto materialmente — não no meu corpo, mas no meu espírito. É muito difícil, concordo, fazer compreender isto a alguém. Entretanto, acredite-me; juro-lhe que é assim.
(SÁ-CARNEIRO, Mário. A Confissão de Lúcio, pag. 45)

A Confissão de Lúcio, de
Mário de Sá-Carneiro
   Lúcio é um escritor que está sempre rodeado por outros artistas. O que gostei do personagem é que ele entende que as narrações são suas, portanto, sempre que pode, deixa os outros personagens se estenderem um pouco nos diálogos, possibilitando ao leitor conhecer além das ideias do principal — e entender a trama.

  Lúcio conhece o poeta Ricardo de Loureiro, seu grande amigo, com suas ideias diferentes, sua sensibilidade. Ricardo “casa-se” com Marta e Lúcio, numa tentativa de descobrir os mistérios em torno desta mulher, torna-se amante dela. Suas perguntas apenas aumentam, e ele vive frustrado por isso. Mas a paranoia dele é justificável.

Quem era, mas quem era afinal essa mulher enigmática, essa mulher de sombra? De onde provinha, onde existia?… Falava-lhe há um ano, e era como se nunca lhe houvesse falado… coisa alguma sabia dela — a ponto que às vezes chegava a duvidar da sua existência. E então, numa ânsia, corria a casa do artista, a vê-la, a certificar-me da sua realidade — a certificar-me de que nem tudo era loucura: pelo menos ela existia.
(SÁ-CARNEIRO, Mário. A Confissão de Lúcio, pag. 71)

   O livro é curto, a linguagem simples e sem rodeios. É possível lê-lo em pouquíssimas horas, até porque é muito instigante. Não há muito mais o que comentar, senão estaria eu escrevendo demais. Devo ressaltar que é sempre bom deixar a mente aberta para absorver o que essa narração tem a oferecer.

O beijo de Ricardo fora igual, exatamente igual, 
tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os 
beijos de minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira.

(SÁ-CARNEIRO, Mário. A Confissão de Lúcio, pag. 93)


Escrito por MsBrown
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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

   Fazia algum tempo que eu queria ler O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray), de Oscar Wilde. De início, além de o título ter me chamado a atenção, eu já tinha assistido ao filme estrelado por Ben Barnes e Colin Firth e dirigido por Oliver Parker. A ideia de que o retrato de uma pessoa mostraria sua alma e a pessoa em si continuasse com a aparência de quando foi pintada me pareceu incrível. Então quando finalmente comecei a ler a obra, único romance escrito por Oscar Wilde, minhas expectativas eram enormes. Felizmente, não me decepcionei.

‘(…) Não o estrague. Não o influencie. Sua influência seria má. O mundo é grande, e há muitas pessoas maravilhosas nele. Não tire de mim a pessoa que dá à minha arte o charme que ela possui; minha vida como um artista depende dele.’
(WILDE, Oscar. The Picture of Dorian Gray, pag.13)

   A história se passa na Inglaterra e Dorian Gray é um jovem belíssimo e inocente. Basil Hallward é um pintor que introduz Dorian a Lord Henry Wotton, um dos personagens mais marcantes. Basil faz sua obra de arte: pinta Dorian Gray tão perfeitamente que Dorian acaba por desejar que ele fique para sempre jovem e bonito e a pintura envelheça no lugar dele. Henry idolatra a beleza do jovem, assim como todo mundo, mas é um manipulador. Ele consegue convencer a quase todos a sua volta acerca de suas teorias. Dorian é o que, apesar de sempre falar que Henry diz coisas terríveis, faz o que ele diz. Henry é a porta para Dorian fazer tudo o que imagina fazer, sem escrúpulos.
O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde,
versão da Collins Classics
Quando Dorian percebe que seu desejo se realizou, ele também percebe que a pintura é sua consciência. Mas não é visível (ele trancou a pintura num lugar onde ninguém pode ver), o que o permite fazer o que quiser sem pensar nas consequências ou na moral. Mas até que ponto ele se deixará levar? Até quando as pessoas vão aceitar que ele é apenas um jovem lindo que permanece sempre com a mesma aparência?

‘Eu tenho inveja de tudo cuja beleza não morre. Eu tenho inveja do retrato que você pintou de mim. Por que isso deveria manter o que eu devo perder? Cada momento que passa leva algo de mim e acrescenta algo a mim. Oh, se fosse o contrário! Se a pintura pudesse mudar, e eu pudesse sempre ser o que sou agora! Por que você pintou isso?’
(WILDE, Oscar. The Picture of Dorian Gray, pag. 25)

   No começo eu achei as reações de Dorian muito infantis. Muito melodramáticas. Com o passar da história, isso diminuiu. Se ele continuou dramático não foi em vão — ele tinha os porquês. Uma das cenas mais marcantes foi quando ele declarou ao Basil e ao Henry que estava apaixonado por Sibyl Vane, uma atriz que a cada noite vivia uma personagem de Shakespeare, então Basil e Henry foram ao teatro ver essa pessoa tão artística que tinha conquistado o coração de Dorian. Nesta noite, de tão apaixonada que estava, Sibyl não representou sua personagem bem, o que não impressionou os amigos de Dorian e o deixou muito decepcionado com ela. Conclusão: ele declarou que nunca mais a queria ver, e que não a amava mais. Cena interessante, não?
   Henry é um dos personagens mais instigantes da história. Cada fala dele é uma teoria, uma análise do mundo. Ele exalta as ações que a sociedade julga inaceitáveis e vive conforme a sociedade. Basil é seu oposto. Apesar de ambos compartilharem a fascinação pela aparência de Dorian, Henry quer vê-lo dar ouvidos aos seus desejos — seja quais forem —, e Basil quer que o jovem apenas seja bom.

Sim; ele tentaria ser para Dorian Gray o que, sem saber,
o jovem era para o pintor que fez o maravilhoso retrato.
Ele procuraria dominá-lo — já tinha, de fato, feito isso.
Ele faria dele aquele esplêndido espírito.
Havia algo fascinante no filho do Amor e da Morte.
 (WILDE, Oscar. The Picture of Dorian Gray, pag. 35)

   As cenas foram muito bem escritas e cativantes — com exceção de um capítulo que achei insuportável de ler: mas como eu li o livro em inglês (The Picture of Dorian Gray), pode ser que essa aversão ao capítulo tenha se dado porque eu não estava entendo muito e, do que entendi, ali tinha escrito coisas desnecessárias. De qualquer modo, eu recomendo o livro, com certeza.
   Após terminar a leitura, dei uma olhava nas primeiras páginas que vieram com extras sobre a obra e descobri que O Retrato de Dorian Gray pode ter sido uma autobiografia. Primeiro é dito que o retrato é como um confessionário dos católicos: o retrato absorve os pecados de Dorian assim como o padre no confessionário, para que as pessoas possam continuar com suas vidas. Segundo é dito que o livro foi como um “aviso” para o próprio Wilde: que sua maneira de viver talvez fosse levá-lo a um fim não muito agradável (ele foi envolvido em vários escândalos devido a sua homossexualidade ser considerada, em seu tempo, um crime).
   Ah, lembrando daquele filme… pois é, o Dorian é loiro no livro. No filme, bem… E aquele final — que final foi aquele? Lembrando que estou falando do filme que foi lançado em 2009. Aquele que foi lançado em 1945 recebeu o Oscar de Melhor Cinematografia Preto e Branco e foi indicado por melhor atriz coadjuvante para Angela Lansbury (que recebeu o Globo de Ouro na mesma categoria) e Melhor Direção de Arte.

‘Não, Harry. A alma é uma realidade terrível. Ela pode ser comprada, vendida, trocada.
Pode ser envenenada, ou aperfeiçoada. Há uma alma em cada um de nós. Eu sei disso.’
 (WILDE, Oscar. The Picture of Dorian Gray, pag. 215)


Escrito por MsBrown
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domingo, 16 de junho de 2013

Morte de um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller

HAPPY: Ele quer apenas seu bem, isso é tudo. 
Eu queria conversar sobre papai com você faz um tempo, Biff. 
Alguma coisa está — acontecendo com ele. Ele — fala sozinho.
(MILLER. Morte de um Caixeiro Viajante, pag. 21)

      A peça de teatro Morte de um Caixeiro Viajante (Death of a Salesman), de Arthur Miller, foi lançada em 1949. O livro aborda as relações familiares, a preocupação com o que o mundo exterior pensará das ações de cada integrante da família e a ilusão de ser alguém amado e respeitado por todos.
O casal Willy e Linda Loman está enfrentando problemas. Inicialmente, esse problema está em Willy e em sua perda de sanidade. Agora ele anda falando sozinho, lamentando o fracasso de seu filho Biff, e seu amor por ele é mascarado pelo remorso. Biff foi embora da casa dos pais há algum tempo pois seu Willy passou a tratá-lo mal por não conseguir bons empregos. Em conversas entre Biff e seu irmão Happy, é possível perceber que Biff gostaria de se relacionar melhor com o pai, que ele o ama e se preocupa, porém é sempre uma luta quando tenta se aproximar. Já Happy é o irmão que, apesar de estar presente em quase todas as cenas, não é muito notado. Happy diz as novidades e a família sempre o ignora. A atenção é toda para Biff. Isso é um pouco revoltante, até porque quem está o tempo todo com os pais é Happy.


BIFF: Bem, eu passei seis ou sete anos depois do Ensino Médio tentando me ajustar. Despachante, vendedor, negócios de todas as formas; e é uma forma desprezível de viver. Pegar o metrô numa manhã quente no verão. Devotar toda a vida a manter estoque, ou fazer ligações, ou vender e comprar. Sofrer cinquenta semanas do ano por causa de duas semanas de férias, quando o que você realmente deseja é estar ao ar livre, sem sua camisa. E sempre ter que chegar à frente do seu companheiro. E assim — é deste modo que você constrói um futuro. 
(MILLER. Morte de um Caixeiro Viajante, pag. 22)

Com o decorrer da história, Willy começa a imaginar quando os seus filhos eram pequenos. Aí temos Biff e Happy brincando de jogar bola, e Willy dando muita atenção ao primeiro. Bernard, filho do vizinho, vai até a casa da família central e avisa Happy que Biff precisa ir fazer o teste de matemática, se não irá repetir na escola. Pai e filho ignoram o garoto que apenas queria o bem para seu amigo. Mas este fato é o que fica atrapalhando o relacionamento futuro dos dois. Porque este pequeno e aparentemente inútil fato transforma Biff em alguém que não consegue bons empregos. E, sendo assim, seu pai se angustia.
Willy é um vendedor iludido. Ele pensa que muitas pessoas se preocupam com ele e é muito popular. É por essa ilusão que há uma pressão para Biff ser perfeito. Pai e filho não trocam muitas palavras durante toda a peça, mas sim com os outros personagens, de modo que o leitor fica ansioso para saber como eles irão lidar quando resolverem conversar. O resultado, devo dizer, é angustiante. Quando Linda está em cena, tive até pena dela ao falar do marido. Ela, apaixonada por ele, e ele com problemas de perda de sanidade – um homem amargo, egocêntrico que queria ser amado por todos e não percebia que sua família nutria um imenso amor por ele.
O nome da peça (Death of a Salesman) se deu porque Willy conta porque decidir
Death of a Salesman,
de Arthur Miller
ser vendedor. A razão é que em sua adolescência ele conheceu um homem que fazia este tipo de trabalho. Este homem ligava para muitas pessoas e as pessoas ligavam para ele. Willy viu isso como “o homem popular amado por todos”, e passou a pensar que isso ocorria com todos os vendedores.
Não gostei muito do livro. Li-o em inglês e sei que deixei passar muita coisa, e talvez por isso tenha perdido a emoção. Senti-me mal quando Linda ficava dizendo que Willy era um homem bom e no final ele me decepcionou muito. Ele é aquela pessoa que quer muito ser amado mas que nunca mostra que ama as outras pessoas. Gostei do Biff, porque ele era sincero e consegui sentir seu desgosto por causar tantos problemas para sua família – problemas do tipo “tempestade num copo d’água”. Happy foi outro personagem que gostei, assim como Linda, mas que me deixavam triste por serem tão importantes para a trama e na história não serem tratados assim. 
O livro, uma das obras mais famosas do dramaturgo Miller, ganhou o Pulitzer e três Tony's.

LINDA: (…) Eu sei cada pensamento da mente dele.
Isso pode parecer antiquado e bobo, mas eu digo 
a você, ele colocou toda sua vida em suas mãos e você virou 
as costas para ele. (…) Biff, eu juro por Deus! 
Biff, a vida dele está em suas mãos!
(MILLER. Morte de um Caixeiro Viajante, pag. 60)

Em 1951 foi lançado o filme desta obra. Dirigido por Laslo Benedek, modificado por Stanley Roberts e estrelado por Fredric March como Willy Loman, Mildred Dunnock como Linda, Kevin McCarthy como Biff e Cameron Mitchell como Happy. O filme foi indicado ao Oscar: March por Melhor Ator, McCarthy por Melhor Ator, Dunnock por Melhor Atriz Coadjuvante, Franz Planer  por Melhor Cinematografia Preto e Branco e Alex North por Melhor Música e ganhou os Globo de Ouro por Melhor Cinematografia, Melhor Diretor, Melhor Ator de Drama para Fredric March e Ator Promissor para Kevin McCarthy, além de outros prêmios. A peça também atingiu a TV, em 1985, desta vez o filme dirigido por Volker Schlöndorff, com roteiro modificado pelo autor Arthur Miller, e estrelado por Dustin Hoffman como Willy, Kate Reid como Linda, John Malkovich como Biff, Stephen Lang como Happy. Recebeu o Globo de Ouro por Melhor Ator para Dustin Hoffman e foi nomeado por Melhor Filme, Melhor Atriz para Kate Reid e ganhou 3 Emmy’s.


WILLY: (…) Eu percebi que ser vendedor era a 
melhor carreira que um homem poderia querer. 
Por que o que seria mais satisfatório a poder ir, na idade 
de oitenta e quatro anos, em vinte ou trinta cidades diferentes, 
e pegar um telefone, e ser lembrado e amado e ajudado por tantas pessoas?
 (MILLER. Morte de um Caixeiro Viajante, pag. 81) 

Escrito por MsBrown
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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams

CHANCE: (…) Eu não sabia que havia um relógio neste quarto.
PRINCESS: Eu acho que há um relógio em cada quarto onde as pessoas vivem…
 (WILLIAMS. Sweet Bird of Youth, pag. 110)

   A peça teatral Doce Pássaro da Juventude (Sweet Bird of Youth), lançada em 1959 por Tennesse Williams, foi produzida na Broadway e também no cinema, tratando assuntos tão sérios porém tão brevemente.
   Chance Wayne é aspirante a ator. Está no mesmo quarto de hotel em St. Cloud, Flórida (cidade onde nasceu e está visitando) que Princess Kosmonopolis, a atriz Alexandra Del Lago, que pensa que seu filme de “come back”, seu retorno ao cinema, foi um fiasco. A atriz quer apenas esquecer a vida que leva (as críticas dos cinéfilos), por isso se registrou no hotel com um pseudônimo. Já Chance está interessado na ajuda da atriz para conseguir participar de um filme. Ambos enfrentam o tempo, a perda da juventude.
   Conhecemos a história de amor de Chance com Heavenly Finley, a ira de Tom “Boss” Finley (pai de Heavenly) contra Chance, sabemos os motivos porque muitas pessoas dizem a ele para ir embora da cidade e o pânico da Princess acerca de sua atuação e aceitação nas telas do cinema. Temos uma história sobre interesse, amor e principalmente a luta contra o tempo…

CHANCE: Cada vez que eu voltava para St. Cloud 
eu tinha o amor dela para voltar…
PRINCESS: Algo permanente em um mundo de mudanças?
CHANCE: Sim, depois de cada desapontamento, cada falha em algo, 
eu voltaria para ela como iria para um hospital.
 (WILLIAMS. Sweet Bird of Youth, pag. 48)

Capa da edição lida. As demais peças
já foram resenhadas aqui e aqui.
   Não posso dizer que adorei este livro. Como tenho lido outros do Tennessee, ficou difícil classificá-lo tão bom quanto os outros. Aqui o final foi ficando cada vez mais interessante, porém senti falta de maior exploração dos assuntos nele tratados (morte, doenças venéreas etc). Por exemplo, no primeiro ato, na primeira cena, Chance é notificado de que sua mãe faleceu. E é isso. Penso eu que se Tennessee tivesse explorado essa parte um pouco mais séria ficaria bem melhor, mas é claro que cuidando para que essa expansão do assunto não se tornasse clichê, mas poderia explicar melhor a personalidade de Chance. O livro não me causou fortes emoções, apesar de tratar temas sérios (retomando a discussão anterior, por conta dos problemas terem sido tratados muito brevemente, o sentimento não se passou para mim, a leitora), no entanto é fácil de ser lido (li em inglês) e o desfecho foi com uma fala que eu particularmente adorei:

CHANCE (…): Eu não peço por sua compaixão,
mas apenas pela sua compreensão — não, nem isso — não.
Apenas pelo seu reconhecimento de mim em você, 
e do inimigo, o tempo, em todos nós.
 (WILLIAMS. Sweet Bird of Youth, pag. 111)


   A peça se transformou em filme em 1962, dirigido por Richard Brooks e estrelado por Paul Newman (como Chance), que foi indicada ao Globo de Ouro como Melhor Ator de Drama, Geraldine Page (como Princess), que foi indicada ao Oscar e ao BAFTA por Melhor Atriz e ganhou o Globo de Ouro, Shirley Knight (como Heavenly), também indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro por Melhor Atriz Coadjuvante, e Ed Begley (como “Boss”), que ganhou o Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante e foi indicado ao Globo de Ouro. A peça também foi adaptada para a televisão em 1989, agora com direção de Nicolas Roeg, estrelando Mark Harmon (como Chance), Elizabeth Taylor (como Princess), Cheryl Paris (como Heavenly) e Rip Torn (como “Boss”).

Escrito por MsBrown
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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Água Para Elefantes, de Sara Gruen

Não falo muito sobre esses dias. Nunca falei. (…)
Na verdade, eu sei por que não falo sobre isso: 
nunca confiei em mim. 
Eu tinha medo de deixar escapar alguma coisa. 
Sabia como era importante guardar o segredo dela e de 
fato o guardei – pelo resto de sua vida e depois.
Em 70 anos, nunca o revelei a ninguém.
(GRUEN. Água Para Elefantes, pag. 8)


   Jacob Jankowski tem 90 anos. Ou 93. Como ele revela, a idade já não mais importa. É difícil lembrar quantos anos viveu, e já não é tão importante para sua família. Mas o passado, tempos em que ele tinha uns 23 anos e participava de um circo, permanece em sua memória. E ele guarda um segredo desde a juventude. Mas neste livro de Sara Gruen, Água Para Elefantes (Water for Elephants), que foi lançado em 2006, Jacob vai nos contar o que aconteceu no circo.
   Quando Jacob tem seus 23 anos e está terminando a faculdade de Veterinário, seus pais sofrem um acidente de carro e falecem. Sozinho, sem dinheiro, o rapaz resolve não fazer as provas finais e pula num trem em movimento. O trem é do Circo Irmãos Benzini, o Maior Espetáculo da Terra, um dos poucos circos que ainda lutam para sobreviver à Grande Depressão. Jacob é admitido como veterinário e faz amizade com Walter, um anão artista que possui uma cadela, a Queenie. Ele percebe a hierarquia dentro do circo, conhece August, o chefe do setor dos animais, que está sempre com o humor vacilando entre os extremos e é casado com Marlena, que faz o número dos cavalos, por quem Jacob se apaixona; ainda há o Tio Al, dono do circo, que não se preocupa com os trabalhadores contanto que eles lhe garantam boa bilheteria. Mas Jacob não se apaixona apenas por Marlena; seu amor por Rosie, a elefanta recém adquirida do circo, é tocante. Ela, inicialmente, é tratada como inútil, pois não faz nada, só gosta de brincar; posteriormente podemos observar que ela é incrivelmente inteligente, só precisa entender o que seu domador está falando.
Capa do livro com os autores do filme,
Robert Pattinson e Reese Witherspoon

Talvez o problema seja eu. Talvez eu quisesse odiá-lo porque estou apaixonado por sua esposa e, se isso for verdade, que tipo de homem eu sou? 
(GRUEN. Água Para Elefantes, pag. 190)


  No final do livro, na nota da autora, Sara Gruen diz o que a inspirou. A elefanta da história, Rosie, foi criada em homenagem à Topsy, uma elefanta que matou seu domador, em 1903, e à Old Mom, uma elefanta que só entendia palavras em alemão, ambas nos Estados Unidos. As peripécias de Rosie foram observadas em outros animais na literatura que a autora usou para escrever Água Para Elefantes. Apesar de ter gostado muito da história, me decepcionei porque o que Sara Gruen escreveu não foi totalmente original, excetuando a história de amor entre Jacob e Marlena, a história do Jacob idoso, a vacilação de humor de August e a tirania de Tio Al, assim como as descrições dos maus tratos aos animais. É uma história memorável e ampla. Além de falar sobre as dificuldades de um idoso que não se sente como um, que, na verdade, se irrita por estar tão velho e todos terem que cuidar dele, temos os tempos de juventude, uma história de amor impossível, e a parte tocante sobre os animais.

Estou tão acostumado a levar broncas e ser 
guiado e dominado e manipulado, que já não 
sei mais como reagir quando alguém me trata 
como uma pessoa de verdade. 
(GRUEN. Água Para Elefantes, pag. 147)


   Em 2011, nos Estados Unidos, foi lançado o filme da obra, dirigido por Francis Lawrence, com roteiro de Richard LaGravenese e estrelado por Robert Pattinson como Jacob de 23 anos, Hal Holbrock como o Jacob de 93 anos, Reese Witherspoon como Marlena e Christoph Waltz como August.
   Recomendo o livro a todas as pessoas que se preocupam com animais para entender que o que vemos nos circos e em outros locais onde há animais sendo tratados por humanos nem sempre é a realidade. Há especialistas na ilusão.

Escrito por MsBrown
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quinta-feira, 21 de março de 2013

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee

 MARTHA
(...) Nós choramos o tempo todo, e depois que choramos,
nós pegamos nossas lágrimas e as colocamos numa caixa de gelo,
 nas malditas bandejas de gelo (Começa a rir) até que elas fiquem 
congeladas (Ri ainda mais) e depois... nós as colocamos... em nossos...
drinks. (ALBEE. Pag. 185-186)

   Quem Tem Medo de Virginia Woolf (Who's Afraid of Virginia Woolf?) é uma memorável peça de teatro, escrita por Edward Albee em 1962. Com três atos, quatro personagens e o cenário da sala de estar, essa obra simples ganhou, em 1963, o prêmio Tony de Melhor Peça e em 1962-1963 foi considerada Melhor Peça pela New York Drama Critics Circle Award.
Capa da peça aqui resenhada
   George e Martha são casados há bastante tempo. Ele é professor de História na universidade e ela, filha do reitor. Ao voltarem tarde duma festa, que o pai de Martha realizou, eles começam a trocar insultos e a beberem, mesmo cientes de que as visitas logo chegarão. O comportamento de George muitas vezes é condescendente, paciente, mas cheio de mágoa em relação à humilhação sofrida por causa de sua mulher, que grita e diz tudo o que vem pela cabeça.
   O casal Nick e Honey chegam e logo percebem a tensão dos anfitriões. Com isso, preferem entrar no "jogo" e passam a beber também. Nick é o novo professor de Biologia na universidade, e é um homem bonito. Honey é delicada e orgulhosa pelo marido. Fica bêbada tão depressa que não percebe que Martha está flertando com Nick - isso não passa despercebido por George.
   Martha sempre está a humilhar George, e ele a responde sagazmente. É como se ela estivesse pedindo por sua atenção, e nunca se cansasse. E ele, estando ciente disso, fingisse despreocupação. Há cenas sombrias, nos "jogos da verdade" que George incita, e os diálogos demonstram que os personagens nem sempre estão sendo sinceros. George e Martha falam bastando do seu suposto filho que fará aniversário no dia seguinte.  Nick e Honey ficam escandalizados com a atitude dos anfitriões, porém eles mesmos acabam confessando seus segredos de casal...

GEORGE
Há areia movediça aqui, e vocês serão arrastados (...)
Antes de perceberem, sugados para baixo (...)
Você me enoja, no princípio, e você é um filho da puta presunçoso 
pessoalmente, mas estou tentando te dar um kit de sobrevivência. 
VOCÊ ME OUVIU?
(ALBEE. Pag. 115)

   O título é um trocadilho com a canção do desenho animado da Walt Disney, Os Três Porquinhos, de 1933, e com o nome da escritora britânica Virginia Woolf. Como todos os personagens possuem um vínculo financeiro com os pais (das mulheres), isso demonstra que suas atitudes são pouco adultas. Juntando Virginia Woolf, escritora que queria que revelar a verdade das experiências humanas, os casais aqui tinham medo da realidade, de confessar as verdades. Quem Tem Medo de Virginia Woolf é uma peça com apenas quatro personagens com medo similares; ao se embebedarem, eles acabam misturando realidade e fantasia, e isso pode deixar o leitor confuso, porém, no final, basta entender que são dois casais - um de longa data e outro recém-casado - que nunca tiveram que explorar o mundo por si mesmos, agindo até como crianças medrosos do lobo mau, ou seja, da verdade que se encontra nos escritos da Virginia Woolf.
O filme, estrelado por Elizabeth Taylor e Richard Burton
   Deste livro foi lançado o filme de mesmo nome em 1966, com roteiro de Ernest Lehman, dirigido por Mike Nichols (seu primeiro filme) e estrelado por Elizabeth Taylor, no papel de Martha, Richard Burton como George,  George Segal como Nick e Sandy Dennis como Honey. O filme foi o primeiro a ter o elenco principal e todas as categorias elegíveis ao Oscar de 1967, ganhando os de Melhor Atriz para Elizabeth Taylor, Melhor Atriz Coadjuvante para Sandy Dennis, Melhor Fotografia preto-e-branco e Melhor Figurino. Na época, Elizabeth Taylor e Richard Burton eram casados e os tabloidos anunciavam bebedeiras e brigas do casal. O filme recebeu o BAFTA de 1967, em Melhor Filme de Qualquer Origem, Melhor Atriz Britânica para Elizabeth Taylor, Melhor Ator Britânico para Richard Burton e faz parte da lista dos 100 melhores filmes pela AFI.
   Como assisti o filme primeiro, quando li a versão em inglês já tinha os rostos dos personagens em minha cabeça. Em nada me decepcionaram. Gostei tanto do filme quanto do livro. Posso dizer que a única diferença entre eles é que, no livro, o cenário é a casa, e no filme eles até se deslocam a mais um cenário. Ler em inglês foi um passo muito importante no meu crescimento, pois foi o primeiro livro adulto que li na língua estrangeira. A linguagem das peças sempre são claras, rápidas, e isso vem me conquistando cada vez mais. Às vezes uma peça proporciona mais emoção do que os romances que indicam cada passo dos personagens.

MARTHA (Imita um sotaque)
Awww, esse refúgio que pegamos quando a irrealidade do mundo 
pesa demais nas nossas pequenas cabeças. (Voz normal novamente)
Relaxe; entenda isso; você não é melhor que ninguém.
(ALBEE. Pag. 187-188)
Escrito por MsBrown

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terça-feira, 5 de março de 2013

#Clube do livro ~ Março / O Quinze

Livro: O Quinze

Publicação: 1930/Brasil

Autor: Rachel de Queiroz





RESUMO DA OBRA

O Quinze, de Rachel de Queiroz, trata-se da seca que ocorreu no Nordeste do Brasil em 1915. O cenário é o Ceará. Primeiro, o interior. Não há chuvas. As pessoas começam a se preocupar, a abandonarem gado, a se retirar para a capital, a fugir da miséria certa. Entre essas famílias há a do Chico Bento. Despedido do emprego, ele e sua família não consegue uma passagem de trem para a capital, de modo que têm que ir à pé. Com cinco crianças com fome, em trapos, essa família passa por dificuldades extremas. Mocinha, cunhada de Chico, que se retirou com eles, antes tão bem arrumada, agora já sabe que não importa bons modos, ela tem que ganhar de dinheiro de qualquer maneira… Chico Bento, antes tão calmo, agora quase tonto de fome é capaz de matar uma cabra de não pertence a ele… e as tripas é só o que lhe resta. Ele e sua esposa, Cordulina, assistem aos seus filhos sofrerem, a ficarem doentes, e nada podem fazer.
 
No interior há também o Vicente, que cuida de seu próprio gado, embora isso possa trazê-lo prejuízo. Ele é apaixonado por Conceição, sua prima, que faz faculdade na capital e só vem ao interior nas datas especiais, onde fica na casa da avó Dona Inácia. Ela é amante dos livros, e gosta do Vicente também. Com a seca, Conceição convence sua avó a mudar-se com ela para a capital, porém lá vê o sofrimento quando começa a trabalhar no Campo de Concentração — onde os retirantes vão para conseguir comida de graça do Governo, uma tentativa do mesmo para evitar que os famintos cheguem à Fortaleza. Vicente continua no interior, lutando contra a seca e a solidão.


De acordo com o Guia doEstudante, na época da seca, no Ceará, em média, 150 pessoas morriam por dia.

COMENTÁRIOS 


A escrita de Rachel de Queiroz é direta, mas aproxima a comparação dos homens com o ambiente. As árvores secas, os homens magros, miseráveis… A grande seca de 1915 foi fortemente relatada aqui, com personagens fictícios representando uma dura realidade do Nordeste brasileiro. Em O Quinze, as pessoas sonham, planejam, esperam pela chuva… mas nem tudo sai como planejado, e quando a chuva chega, ainda é necessário esperar um tempo para tudo se estabilizar.


Com um desfecho realista, Rachel de Queiroz marca muito com esta obra. Campos de Concentração, milhares de pessoas num lugarzinho, esperando por um pouco de comida. Outras pessoas pedindo esmola, às vezes levando crianças como “seus filhos” para ganharem mais dinheiro daqueles que podiam doar umas moedas… A morte, o cheiro do Campo, a fome que tonteava a família do Chico Bento e que a diminuiu… Tudo isso, e Rachel de Queiroz escreveu um livro tão importante para o Brasil quando tinha vinte anos!

TRECHOS



E Chico Bento pensava: — Por que, em menino, a inquietação, o calor, o cansaço, sempre aparecem com o nome de fome? Pag. 54
 
A rede de Cordulina que tentava um balanço, para enganar o menino — pobrezinho! o peito estava seco como uma sola velha! — gemia, estalando mais, nos rasgões.

E o intestino vazio se enroscava como uma cobra faminta, e em roncos surdos resfolegava furioso: rum, rum, rum… Pag. 61


Dia a dia, com as forças que iam minguando, a miséria escalavrara mais a cara sórdida, e mais fortemente os feria com a sua garra desapiedada. Pag. 71
  
E longamente ali ficou, sorvendo o cheiro forte que vinha da terra, impregnado dum calor de fecundação e renovamento, deixando que se lhe molhasse o cabelo revolto, e lhe escorresse a água fria pela gola, num batismo de esperança, a que ele deliciadamente se entregava, sentindo nas veias, mais ativo, mais alegre, o sangue subir e descer em gólfãos irrequietos. Pag. 125
 

— Ora o amor!… Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar… eu, pelo menos, nunca o vi… o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação muito obscuro e tímido, a que a gente obedece conforme as conveniências… Aliás, não falo por mim… que eu, nem esse instinto… Tenho a certeza de que nasci para viver só… Pag. 136

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