"A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdadeira" Theodor Adorno

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Doce Vingança de Nora Roberts

"Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plenamente os conflitos e dúvidas que a dominavam."
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Feérica, de Carolina Munhóz

"As fadas existiam porque humanos ainda acreditavam em sua existência. Violet decidiu que já era hora de mostrar que eles tinham motivo para isso."
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Especial de Aniversário de Clarice Lispector: A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens."
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Biografia de Harrie Stowe

"Eu sinto que agora é o tempo em que mesmo uma mulher ou criança que sabem falar uma palavra de liberdade e humanidade é obrigado a falar..."
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sábado, 19 de julho de 2014

Moise e o Mundo da Razão, de Tennessee Williams

Moise e o Mundo da Razão,
de Tennessee Williams
— É que o meu mundo não é o mundo de vocês. Seria uma insuportável banalidade proclamar que cada um de nós é o habitante único de seu mundo particular. De forma que eu não conheço o mundo de vocês e vocês não conhecem o meu. A mim, é claro, me parece perfeitamente evidente que o mundo de vocês é, relativamente, um mundo que contém certa dose de razão.
(WILLIAMS, Tennessee. Moise e o Mundo da Razão, pag. 22)

   Moise e o Mundo da Razão (Moise and the World of Reason), de Tennessee Williams, é o primeiro romance escrito pelo autor estadunidense, lançado em 1975. Conhecido por suas peças de teatro, mais uma vez os temas que o marcaram voltam à tona em uma história sobre homossexualidade, perda, devaneios e lembranças do passado.
   O livro é narrado pela personagem que se designa como “ilustre escritor fracassado”, e que não cita seu nome. É um homem de trinta anos que tem como amante Charlie, um homem de vinte anos, e possui grande carinho por Moise, uma pintora que, logo no início da história, faz seu discurso sobre estar deixando o mundo da razão. Conhecemos Lance, o primeiro amor do escritor, “um turbilhão negro sobre o gelo”, que morreu patinando no gelo e deixou ao escritor a parte do armazém em que moravam, “o retângulo com ganchos”.

Durante treze anos não houve nada de grande 
importância na minha vida além daquele patinador no gelo, 
de Moise e deste meu costume de procurar escrever as coisas 
em detalhe numa longa série de cadernos Blue Jay.
(WILLIAMS, Tennessee. Moise e o Mundo da Razão, pag. 57)

   Agora, escrevendo nos cadernos Blue Jay e nas cartas de rejeição das revistas e editoras, sentado no BON AMI, um caixote, o “ilustre escritor fracassado” relata como Moise fez seu discurso e o efeito dele no restante do livro. A história é dividida em quatro capítulos; penso eu que se houvessem capítulos menores e talvez fosse dividida em quatro partes, seria mais interessante e a leitura mais dinâmica, mais envolvente.
   Tendo lido outros livros do autor, esperava que este em questão me emocionasse mais, assim como Um Bonde Chamado Desejo, por exemplo. A história não me tocou, exceto em raros momentos. Pareceu-me uma aventura sem nexo, retalhos de acontecimentos que a personagem principal descrevia, um começo inesperado com um final inesperado, e não no bom sentido. Tennesse Williams deixou Moise e o Mundo da Razão como sua despedida do mundo literário. O simbolismo de sua obra deve ser mais estudado, e recomendo às pessoas que, se abrirem a mente, possam desfrutar dessa história que coloca em questão o mundo da razão.

— Eu diria que na sua idade já devia ter aprendido que tem de suportar uma porção de coisas desagradáveis.
— Sim, inclusive a mim mesmo. Me lembro de que uma vez o animador de um programa de TV me perguntou: “O senhor gosta de si mesmo?” Respondi com um olhar vazio e um silêncio, e ele insistiu: “O senhor adora a si mesmo?”, e finalmente respondi: “Bom, eu estou amarrado a mim mesmo e tenho de me aturar de qualquer maneira”.
(WILLIAMS, Tennessee. Moise e o Mundo da Razão, pag. 109)

Escrito por MsBrown
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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams

CHANCE: (…) Eu não sabia que havia um relógio neste quarto.
PRINCESS: Eu acho que há um relógio em cada quarto onde as pessoas vivem…
 (WILLIAMS. Sweet Bird of Youth, pag. 110)

   A peça teatral Doce Pássaro da Juventude (Sweet Bird of Youth), lançada em 1959 por Tennesse Williams, foi produzida na Broadway e também no cinema, tratando assuntos tão sérios porém tão brevemente.
   Chance Wayne é aspirante a ator. Está no mesmo quarto de hotel em St. Cloud, Flórida (cidade onde nasceu e está visitando) que Princess Kosmonopolis, a atriz Alexandra Del Lago, que pensa que seu filme de “come back”, seu retorno ao cinema, foi um fiasco. A atriz quer apenas esquecer a vida que leva (as críticas dos cinéfilos), por isso se registrou no hotel com um pseudônimo. Já Chance está interessado na ajuda da atriz para conseguir participar de um filme. Ambos enfrentam o tempo, a perda da juventude.
   Conhecemos a história de amor de Chance com Heavenly Finley, a ira de Tom “Boss” Finley (pai de Heavenly) contra Chance, sabemos os motivos porque muitas pessoas dizem a ele para ir embora da cidade e o pânico da Princess acerca de sua atuação e aceitação nas telas do cinema. Temos uma história sobre interesse, amor e principalmente a luta contra o tempo…

CHANCE: Cada vez que eu voltava para St. Cloud 
eu tinha o amor dela para voltar…
PRINCESS: Algo permanente em um mundo de mudanças?
CHANCE: Sim, depois de cada desapontamento, cada falha em algo, 
eu voltaria para ela como iria para um hospital.
 (WILLIAMS. Sweet Bird of Youth, pag. 48)

Capa da edição lida. As demais peças
já foram resenhadas aqui e aqui.
   Não posso dizer que adorei este livro. Como tenho lido outros do Tennessee, ficou difícil classificá-lo tão bom quanto os outros. Aqui o final foi ficando cada vez mais interessante, porém senti falta de maior exploração dos assuntos nele tratados (morte, doenças venéreas etc). Por exemplo, no primeiro ato, na primeira cena, Chance é notificado de que sua mãe faleceu. E é isso. Penso eu que se Tennessee tivesse explorado essa parte um pouco mais séria ficaria bem melhor, mas é claro que cuidando para que essa expansão do assunto não se tornasse clichê, mas poderia explicar melhor a personalidade de Chance. O livro não me causou fortes emoções, apesar de tratar temas sérios (retomando a discussão anterior, por conta dos problemas terem sido tratados muito brevemente, o sentimento não se passou para mim, a leitora), no entanto é fácil de ser lido (li em inglês) e o desfecho foi com uma fala que eu particularmente adorei:

CHANCE (…): Eu não peço por sua compaixão,
mas apenas pela sua compreensão — não, nem isso — não.
Apenas pelo seu reconhecimento de mim em você, 
e do inimigo, o tempo, em todos nós.
 (WILLIAMS. Sweet Bird of Youth, pag. 111)


   A peça se transformou em filme em 1962, dirigido por Richard Brooks e estrelado por Paul Newman (como Chance), que foi indicada ao Globo de Ouro como Melhor Ator de Drama, Geraldine Page (como Princess), que foi indicada ao Oscar e ao BAFTA por Melhor Atriz e ganhou o Globo de Ouro, Shirley Knight (como Heavenly), também indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro por Melhor Atriz Coadjuvante, e Ed Begley (como “Boss”), que ganhou o Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante e foi indicado ao Globo de Ouro. A peça também foi adaptada para a televisão em 1989, agora com direção de Nicolas Roeg, estrelando Mark Harmon (como Chance), Elizabeth Taylor (como Princess), Cheryl Paris (como Heavenly) e Rip Torn (como “Boss”).

Escrito por MsBrown
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

À Margem da Vida, de Tennessee Williams

   Tennessee Williams não tem medo de expor seus pensamentos. Quando se lê suas obras, é possível relacioná-las a fatos de sua vida - suas angústias, a constante procura por compreensão. Isso é o que acontece em À Margem da Vida (The Glass Menagerie), a peça de teatro em que é apresentado Tom Wingfield, um jovem que trabalha num depósito de calçados, mas que quer ser escritor e entrar para a Marinha Mercante.

Tom

(…) Na Espanha houve Guernica!

Mas aqui só havia música de swing hot e uísque, salões de dança,

cinemas e sexo, que pairava na penumbra como um lustre e inundava

o mundo de arcos-íris breves e ilusórios.…

(WILLIAMS. À Margem da Vida, pag. 69)

   As relações familiares são sempre difíceis nas obras de Williams. Neste livro, ambientado na década de 1930, Tom tem problemas com a mãe, Amanda, pois esta sempre está a dizer que ele é egoísta por querer ser escritor e ir embora. Tom é o único em sua casa que trabalha e tem que sustentar a mãe e a irmã, Laura. Mas ele não está feliz. Todos os dias vai ao "cinema" e volta apenas a poucas horas de acordar e ir para o trabalho.
   Laura é a irmã, frágil, que tem problemas de saúde. Ela não terminou os estudos, tem grande dificuldade para lidar com as pessoas, é aleijada e tem o complexo de inferioridade. Amanda, que em sua juventude foi encantadora e tinha muitos pretendentes, quer arranjar um marido para Laura, sugerindo que Tom convide um de seus amigos para um jantar. O pai de Tom, que participou da Primeira Guerra Mundial, abandonou a família certo dia, deixando Amanda de coração partido e ela nunca o superou - constantemente compara-o com Tom.
   O cavalheiro visitante - convidado de Tom -, chama-se Jim O'Connor e representa a esperança de Amanda e Laura (ela era apaixonada por ele no colégio). Jim tenta convencer Laura de que ela precisa se sentir superior, parar de criar ilusões sobre ser menos importante, mas Jim apresenta ser muito rígido com sua aparência e um tanto alheio à realidade também.

   Tom é incompreendido. Quer ser escritor mas tem que trabalhar com calçados para a sobrevivência. Suas idas ao "cinema" podem significar muitas coisas. É certo que ele realmente vai ao cinema, mas passa por outros lugares depois, frequentemente voltando para casa num estado deplorável. Tennessee Williams teve um pai (abusivo) vendedor de calçados que era veterano de guerra; quando criança, teve difteria (doença respiratória infectocontagiosa) e mais tarde problemas com alcoolismo e anfetaminas e barbitúricos, logo após sua irmã Rose ficar incapacitada pela cirurgia de lobotomia, em 1937 - fatos que contribuíram para a feracidade/veracidade de À Margem da Vida, cheia de diálogos honestos e sofridos.
   Laura possui uma coleção de animais de vidro, tendo como seu preferido o unicórnio, um grande símbolo para o livro. Tennessee também era apreciador dessa arte e quando criança tinha enfeites de animais de vidro em seu quarto. É possível que Laura tenha sido inspirado pela irmã Rose e Amanda pela própria mãe de Tennessee, sobrando Tom para o papel do autor. Enquanto isso, o pai Wingfield, ausente, poderia representar a falta de fraternidade entre o autor e seu pai.

Tom

Mas sou o contrário de um mágico de teatro. 
Ele lhes dá uma ilusão com aparência de verdade. 
Eu lhes dou a verdade sob o disfarce agradável da ilusão. 
(WILLIAMS. À Margem da Vida, pag. 26)

   Tennessee Williams escreveu pedaços de sua vida, conferindo a angústia de todos os personagens, uma poética tocante - uma esperança tênue -, na peça que iniciou sua carreira de sucesso, em 1944. À Margem da Vida recebeu o prêmio New York Drama Critics' Circle e foi produzida para o cinema em 1950, dirigido por Irving Rapper e estrelado por Gertrude Lawrence, Kirk Douglas e Jane Wyman. Em 1973, a obra foi filmada para a TV, com a direção de Anthony Harver e estrelando Katherine Hepburn, Sam Waterston e Joanna Miles. Outras adaptações também foram realizadas.
   As obras de Tennessee Williams são psicológicas, realistas. Ele é um autor sem medo de se expor, procurando, talvez, através de suas próprias palavras, alguma compreensão, assim como a maioria de seus personagens. Em À Margem da Vida havia uma atmosfera quase fúnebre pelos sonhos não alcançados, e depois a poesia, a visão da esperança, a procura por algo significativo, os símbolos, a visão do passado e presente, através do narrador-personagem Tom Wingfield.
   Para ler mais sobre o autor, clique aqui. Para conhecer outra obra, Um Bonde Chamado Desejo, clique aqui.


Escrito por MsBrown
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

WILLIAMS, Tennessee. Biografia. Estados Unidos: 1911-1983.

Um dos principais dramaturgos do século XX, depois de Shakespeare, Tennessee Williams foi o dramaturgo mais adaptado ao cinema. Com obras que tratavam de alcoolismo, homossexualidade, depressão e violência, Tennessee deixou um legado especial, lutando para a compreensão das pessoas marginalizadas pela sociedade.
Tennessee Williams

Tennessee Williams nasceu como Thomas Lanier Williams em 26 de março de 1911, em Mississipi, nos Estados Unidos. O pai era um vendedor de sapatos extremamente abusivo, alcoólatra e viciado em jogos de apostas. A mãe tinha humor instável. Tennessee sofreu de difteria na infância, ficando assim um ano fora da escola. Tornou-se introspectivo e estava sempre rodeado de livros. Buscou consolo na escrita, pois o mundo real o deixava desconfortável.

Aos sete anos, a família mudou-se para Missouri, onde Tennessee frequentou a primeira escola - fato que usou em sua peça The Glass Menagerie. O primeiro prêmio de Tennessee foi na forma de US$ 5, pelo ensaio Can a Good Wife Be a Good Sport?, quando o garoto tinha dezesseis anos.

Graduou-se em 1938 na University of Iowa. Não conseguiu entrar para o exército, fato que levou seu pai (um veterano de guerra) a ofendê-lo e obrigá-lo a largar o jornalismo para trabalhar na fábrica de sapatos. Tennessee viciou-se em bebidas alcoólicas e foi internado num sanatório, onde escreveu a peça Cairo, Shanghai, Bombay! (1935), e posteriormente The Magic Tower (1936), Candles to The Sun (1936) e The Fugitive Kind (1937). Querendo sair do anonimato, Tennessee enviou uma coletânea de quatro peças de um ato (American Blues) para um concurso de Nova York, que foi premiada com US$ 100. Uma agente de Hollywood, admirada com os textos, convidou o autor para escrever roteiros de cinema, tarefa em que Tennessee fracassou.

Em 1937, mudou seu nome para Tennessee por ter passado um tempo agradável em Nashville, capital de Tennessee, nos EUA. Neste ano ocorreu também a realização de lobotomia em sua irmã, Rose. Tennessee era muito próxima dela, que apresentava sintomas de esquizofrenia e, ao realizar a cirurgia permitida pelos pais, Rose ficou incapacitada para o resto da vida. Tennessee nunca perdoou os pais por isso e, talvez, esse fato o tenha levado ao alcoolismo e a dependência de anfetaminas e barbitúricos.

Tennesse, em comemoração pela peça
The Glass Menagerie

Sua carreira de sucesso iniciou em 1944, com a peça aclamada pelo público, The Glass Menagerie (À Margem da Vida). As peças seguintes A Streetcar Named Desire (1947) (Um Bonde Chamado Desejo) e Cat On a Hot Tin Roof (1955) (Gata em Teto de Zinco Quente) ganharam os prêmios Pulitzer e Critic's Award. As peças The Rose Tatoo (1950) (A Rosa Tatuada) e Orpheus Descending (1955) (A Descida de Orfeu) foram um fracasso de crítica. Muitos personagens foram inspirados em pessoas que Tennessee conhecia.

A morte do pai, em 1956, e a do avô, em 1958, além dos fracassos de crítica, abalaram Tennessee, levando-o a fazer psicanálise. Apesar de várias peças de sucesso, a crítica estava sempre repudiando o dramaturgo. O relacionamento de Tennessee com Frank Merlo, que tinha servido o U.S. Navy na Segunda Guerra Mundial, desde 1947, permitiu um tempo de equilíbrio emocional ao autor, que entrava sempre em crises de depressão. O romance durou até a morte de Merlo, em 1963, que sofria com o câncer.

Várias peças do autor transformaram-se em filmes, com destaque para A Streetcar Named Desire (Uma Rua Chamada Pecado, título no Brasil), estrelando Vivien Leigh, Karl Malden, Kim Hunter e Marlon Brandon, os três primeiros vencedores do Oscar, dirigido por Elia Kazan em 1951.

Tennessee Williams


Tennessee Williams morreu em 1983, em seu quarto de hotel em Nova York, após ter se engasgado com uma tampa de garrafa. O uso de drogas e álcool contribuíram para sua morte. Tennessee gostaria de ser enterrado no mar, perto da sepultura do poeta e seu maior influenciador, Hart Crane. Foi enterrado no Calvary Cemetery, St. Loius, Missouri.

Os direitos autorais foram deixados para The University of The South, em homenagem ao avô de Tennesse, que fora um aluno. Quando a irmã Rose morreu, deixou US$ 7 milhões para esse mesmo local. Em 1989, a University City Loop colocou Tennessee em sua calçada da Fama.

De importância imensa, Tennessee contribuiu para abertura de temas que incomodavam a sociedade, mas que ocorrem até os dias atuais. Homossexualidade, depressão, violência familiar e outros são ainda assuntos que conferem à obra do autor um "quê" de atemporal.

"Cada escritor, ao longo de sua vida, exprime um único tema.
Para mim, esse tema é a necessidade de compreensão."
Tennessee Williams


Escrito por MsBrown
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sábado, 1 de dezembro de 2012

#Clube do livro ~ Novembro / Um Bonde Chamado Desejo


Livro: Um Bonde Chamado Desejo

Título original: A Streetcar Named Desire


Publicação: 1947/Estados Unidos








RESUMO DA OBRA (Pode conter spoilers)

Blanche DuBois vai visitar sua irmã Stella Kowalsky e o marido Stanley, em Nova Orleans. Blanche é professora de inglês. Ao chegar à casa da irmã, Blanche estranha o ambiente, já está mais acostumada ao luxo. O casal é pobre. Stanley é machista e dominador e fica furioso quando descobre que Blanche perdeu a casa da família. As manias da moça começam a irritá-lo e ele começa a provocá-la cada vez mais. É quando Mitchie surge na vida de miss DuBois. Mitchie é um  homem que cuida da mãe doente e é um cavaleiro. Logo ele e Blanche começam a sair e fazer planos. Até que boatos da cidade onde Blanche morava chegam aos ouvidos de Stanley, que furioso interrompe o noivado de Blanche e Mitchie. Blanche fica devastada e caminha mais perto da loucura do que nunca caminhou. No dia que Stella vai dar à luz ao primogênito, um acidente acontece entre Stanley e Blanche, o que leva esta a ficar a perder completamente a razão. Blanche DuBois é levada ao manicômio e o casal permanece como antes, só que com um bebê agora.

COMENTÁRIOS

MsBrown: Ainda não descobri se foi uma ação boa ter lido a biografia do autor Tennessee Williams antes de começar a ler Um Bonde Chamado Desejo, porque, em vários momentos, via-me “não literalmente” apontando para o livro e dizendo “Ok, Tennessee, é você aqui?”. A questão da violência familiar, a bipolaridade e a homossexualidade foram assuntos presentes durante toda a vida do autor, o que faz sua obra, de algum modo, ter sido o reflexo de seus mais puros sentimentos, convocados às palavras para expor finalmente ao mundo aquilo que eles estavam tentando ignorar. Pelo menos, foi o que enxerguei.

O diálogo foi inebriante. A loucura é. E o livro é sobre uma mulher tornando-se ensandecida. Talvez pelo sofrimento de perder várias pessoas que amava, Blanche podia tornar-se irreconhecível às vezes, mas o contato que ela me permitiu ter à sua loucura criou a empatia. Tennessee expôs a loucura de Blanche de um modo tão especial que era completamente possível entendê-la.
MsMitchell: Um Bonde Chamado Desejo é sobre Blanche. Blanche que cometeu erros no passado e ainda sofre por eles. Da Blanche que ainda vive numa época na qual os homens eram cavaleiros e uma mulher devia ser charmosa e elegante. Da Blanche que tem a realidade escancarada na frente dela e se recusa a aceitar que esta é a única possível A Blanche que ainda está a procura do príncipe encantado, que vai suprir todas suas necessidades e ela poderá viver bem, como sempre sonhou. Como a personagem diz na página 177:
Não quero realismo. Eu quero magia. (Mitch ri.) Sim, sim, magia. É o que tento dar às pessoas. Não digo a verdade, digo o que deveria ser verdade. E se isso é pecado, que eu seja amaldiçoada para sempre.
 Um Bonde Chamado Desejo também é sobre o homem machista e a mulher que gosta disso. Stella e Stanley são um casal que sobrevive de brigas e discussões. A violência doméstica gera tensão sexual. Também é sobre Stanley e Blanche: o debilitado de encontro ao que não compreende, ao ignorante.  Blanche está à beira da loucura, e Stanley vê nela uma aproveitadora e manipuladora. Ele termina por culminar no ataque nervoso de Blanche.
Um Bonde Chamado Desejo, mesmo depois de 60 anos, ainda pode permanecer atual no quesito loucura. São vários os motivos que nos levam a ela. Em Blanche é a culpa pela morte do marido e o medo de envelhecer e continuar sozinha. E, ainda hoje, mesmo sofrendo violência, mulheres ainda ficam ao lado do marido. Um viva a Tennessee Williams e essa obra magnífica.

FRASES

BLANCHE
A pouca sinceridade que ainda existe no mundo pertence às pessoas que passaram por alguma tristeza. (…) Mostre-me alguém que não tenha tido uma tristeza e eu mostrarei a você alguém superficial…
Pag. 75


BLANCHE
Você está falando é sobre desejo brutal… apenas isso… Desejo!… o nome do bonde — um verdadeiro calhambeque — que atravessa, barulhento, o quarteirão, subindo uma velha rua estreita e descendo outra…
STELLA
Você nunca viajou naquele bonde?
Pag. 102


BLANCHE
Eu estava apenas obedecendo à lei da natureza.
MITCH
Que lei é essa?
BLANCHE
A lei que diz que a mulher deve agradar ao homem… ou então desistir!
Pag. 126



MITCH
Mentiras, mentiras, por dentro e por fora, tudo mentiras.
BLANCHE
Por dentro nunca, eu nunca menti no meu coração…
Pag. 180



BLANCHE
          A morte… Eu costumava sentar-me aqui, e ela ali, e a morte estava tão perto de nós quanto você está de mim agora… e nós não ousávamos sequer admitir que já tínhamos ouvido falar nela.
Pag. 182
Sobre o Filme, clique aqui.
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sábado, 24 de novembro de 2012

Filme: Um Bonde Chamado Desejo VS Uma Rua Chamada Pecado



Não se assuste, é a mesma história. Acontece que a peça foi censurada no Brasil, e como forma de driblar os censores da época, a distribuidora do filme “modificou” o nome um pouquinho, deixando, é claro, o título nada a ver com a história.

O tal Bonde
Porque nada a ver com a história? 
Simplesmente porque o título original possui um bonde chamado Desejo, que é o que traz Blanche à casa de Stanley e Stella. Não existe rua chamada Pecado. Para não haver confusão, referiremos-nos à obra pelo título em inglês.

A Streetcar Named Desire conta a história de uma professora de inglês, Blanche DuBois (Vivien Leigh), alcoólatra, que ao chegar na casa de sua irmã, Stella (Kim Hunter) e o marido Stanley (Marlon Brando) tem sua saúde levada ao extremo.

Marlon Brando, Vivien Leigh e Kim Hunter. 
Nesse filme todas as atuações são perfeitas. Sério. Os quatro atores principais foram indicados ao Oscar, e Vivien Leigh, Kim Hunter e Karl Malden ganharam. O diretor e o filme também receberam suas indicações. Já havendo dirigido a peça na Broadway, com todo o elenco do filme, exceto por Vivien Leigh, que substituiu Jessica Tandy, Elia Kazan fez um trabalho primoroso.

Vivien Leigh, para quem conhece a história desta, já havia encantado o mundo como Scarlet O’Hara em ...E O Vento Levou, de 1939, encontrou em Blanche DuBois sua nêmeses. Vivien mergulhou tão fundo no papel que, segundo o marido Sir Laurence Olivier, que a havia digirido na montagem da peça em Londres, Blanche DuBois havia destruído sua vida. E  segundo ela mesma "Blanche DuBois é uma mulher da qual tudo foi arrancado, uma figura trágica e eu a entendo, mas interpretá-la me fez mergulhar na loucura." Sendo bipolar, o papel não fez bem algum à saúde de Vivien.  A partir daí, sua saúde mental só tendeu a piorar.

Blanche, o que foi?
Mas deixando de lado os bastidores, que são enormes, voltemos às semelhanças e des, entre peça e adaptação.  A peça possui grande contexto homossexual, já que grande parte da situação de Blanche foi causada pelo jovem com a qual se casara e que mais tarde descobriu-o com outro homem. Ao ficar acusando-o, ela o levou a dar um tiro na própria cabeça. No entanto, na época do filme, em 1951, imperava ainda o famoso Código Hays, que censurava as produções cinematográficas, em nome da família e bem estar social. Além de grandes cenas do filme terem sido cortadas e seu lançamento, a sexualidade do marido de Blanche é disfarçada, não citada, o motivo que a leva a estar ali, é citado em meio a metáforas e outras figuras de linguagem, enquanto que na peça é dito claramente.

Stella! Stella!
As cenas que foram retiradas foram adicionadas recentemente, e podemos ver através delas, uma sexualidade não vista no cinema da época, como as cenas em que Stanley chama por Stella, na clássica, “Stella, Stella” e ela vem ao encontro dele, e o agarra. No restante, o filme se atém ao texto de Tennessee Williams, ocorrendo apenas algumas adaptações devido à censura.

Sem dúvida o filme é de Blanche. Blanche e Vivien Leigh. A moça frágil, sem dinheiro, que destrói seu grande amor por despeito, alcoólatra, mentalmente desequilibrada, e ainda por cima afrontada por aqueles que não a compreendem. Pertencente à uma época que não existe mais, a época dos cavalheiros e das damas. Como Blanche/Vivien diz ao final: “Eu sempre dependi da bondade de estranhos”, porque você só é compreendido por aqueles que não te conhecem.

Stanley, o que você está fazendo com a pobre Blanche?

Vale a pena assistir. E para entender melhor o personagem que é Blanche, leia esse maravilhoso artigo escrito pela Carla Marinho, do Cinema Clássico: Sobre Blanche DuBois

PS.: Esse livro faz parte do clube do livro, cuja resenha será publicada no último dia de novembro. Aguarde para conhecer melhor a história.
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