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"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens."
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"Eu sinto que agora é o tempo em que mesmo uma mulher ou criança que sabem falar uma palavra de liberdade e humanidade é obrigado a falar..."
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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O Retrato de Dorian Gray, filme VS livro

O Retrato de Dorian Gray,
filme de 1945
   O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray), de Oscar Wilde, foi o único romance escrito pelo autor irlandês, em 1890. Em 1945, a Metro-Goldwyn-Mayer lançou o filme com mesmo nome. O filme, indicado ao Oscar de 1946, é aqui analisado comparando-o ao livro. A história é sobre Dorian Gray, um jovem belo e inocente que deseja que o retrato que Basil Hallward pintou dele absorva a velhice e as expressões interiores (sentimentos que modificam a aparência), e que ele próprio continue para sempre o mesmo, com a aparência de seus vinte anos. Dorian recebe influências negativas de Lord Henry Wotton, e se transforma em alguém que não reconhece o sentimento das pessoas ao seu redor.
   O filme foi dirigido por Albert Lewin e estrelado por George Sanders como Lord Henry, Hurd Hatfield como Dorian Gray, Lowell Gilmore como Basil Hallward, Angela Lansbury como Sibyl Vane e Donna Reed como Gladys Hallward.
Dorian Gray e Sybil Vane,
uma das cenas mais tocantes
 O filme fala quase sempre as mesmas falas do livro. Você reconhece até mesmo quando um personagem diz ou pensa a fala de outro. Há um personagem que não deveria existir, como por exemplo a Gladys, sobrinha de Basil Hallward apresentada logo no início, ainda criança, e por quem Dorian se apaixona no final. Sibyl Vane é a garota por quem Dorian se apaixona em ambos os dramas. Em um ela é atriz, em outro, cantora. Há um gato egípcio que não consta nos escritos de Oscar Wilde, que é o que possibilita o desejo de Dorian de acontecer.
Lord Henry, interpretado por George Sanders
   O narrador do filme pareceu tirar a obrigação do ator que interpretou Dorian de atuar. Poucas foram as cenas em que foi possível reconhecer alguma emoção no rosto de Hurd Hatfield. No todo, ele ficou apenas lá, olhando indiferente para tudo e todos, e o narrador lendo os escritos do livro ou acrescentando verdades. Isso me chateou bastante.
   O ator que interpretou Lord Henry atuou um tanto melhor. Devo lembrá-los de que não sou nenhuma “analista” de cinema, mas devo dizer também que o filme não me agradou pelas atuações principais e pela mudança de cenas que sinceramente acho que seriam melhores se fossem como no livro. A atriz que interpretou Sibyl, no entanto, trouxe algum charme para o filme, porque cantou uma música linda com emoção (mas a Sibyl do livro não é cantora, apenas atua as peças de Shakespeare).
Picture of Dorian Gray, de Ivan Le
Lorraine Albright
   O quadro que aparece no filme foi pintado por Ivan Le Lorraine Albright, um artista norte-americano que era conhecido por pintar o macabro. A finalização do quadro se deu com o término das filmagens pois o pintor tinha que acrescentar detalhes conforme o desenrolar da história. Atualmente a obra se encontra no Instituto de Arte de Chicago.
   O filme foi indicado ao Oscar por Melhor Direção de Arte Preto e Branco, Melhor Atriz Coadjuvante (Angela Lansbury) e ganhou por Melhor Cinematografia Preto e Branco, além do Globo de Ouro por Melhor Atriz e o Hugo por Melhor Drama.
   Pessoalmente não gostei tanto do filme. No livro vi uma perfeição que não poderia ser transferida para as telas, um apego enorme não me deixou curtir o filme como deveria. Mas recomendo a todos que leiam o livro pois a história é muito interessante, e o filme para quem gosta de antigos (lembre-se que teve indicações ao Oscar!).

Gladys e Dorian
Dorian e o Retrato de Dorian Gray
"Ao envelhecermos, nossa memória é assaltada pelas tentações que não tivemos coragem de vivê-las. O mundo é seu por uma estação. Seria trágico que compreendesse tarde demais que somente uma coisa vale a pena... a juventude." Lord Henry W.

Escrito por MsBrown

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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

   Fazia algum tempo que eu queria ler O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray), de Oscar Wilde. De início, além de o título ter me chamado a atenção, eu já tinha assistido ao filme estrelado por Ben Barnes e Colin Firth e dirigido por Oliver Parker. A ideia de que o retrato de uma pessoa mostraria sua alma e a pessoa em si continuasse com a aparência de quando foi pintada me pareceu incrível. Então quando finalmente comecei a ler a obra, único romance escrito por Oscar Wilde, minhas expectativas eram enormes. Felizmente, não me decepcionei.

‘(…) Não o estrague. Não o influencie. Sua influência seria má. O mundo é grande, e há muitas pessoas maravilhosas nele. Não tire de mim a pessoa que dá à minha arte o charme que ela possui; minha vida como um artista depende dele.’
(WILDE, Oscar. The Picture of Dorian Gray, pag.13)

   A história se passa na Inglaterra e Dorian Gray é um jovem belíssimo e inocente. Basil Hallward é um pintor que introduz Dorian a Lord Henry Wotton, um dos personagens mais marcantes. Basil faz sua obra de arte: pinta Dorian Gray tão perfeitamente que Dorian acaba por desejar que ele fique para sempre jovem e bonito e a pintura envelheça no lugar dele. Henry idolatra a beleza do jovem, assim como todo mundo, mas é um manipulador. Ele consegue convencer a quase todos a sua volta acerca de suas teorias. Dorian é o que, apesar de sempre falar que Henry diz coisas terríveis, faz o que ele diz. Henry é a porta para Dorian fazer tudo o que imagina fazer, sem escrúpulos.
O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde,
versão da Collins Classics
Quando Dorian percebe que seu desejo se realizou, ele também percebe que a pintura é sua consciência. Mas não é visível (ele trancou a pintura num lugar onde ninguém pode ver), o que o permite fazer o que quiser sem pensar nas consequências ou na moral. Mas até que ponto ele se deixará levar? Até quando as pessoas vão aceitar que ele é apenas um jovem lindo que permanece sempre com a mesma aparência?

‘Eu tenho inveja de tudo cuja beleza não morre. Eu tenho inveja do retrato que você pintou de mim. Por que isso deveria manter o que eu devo perder? Cada momento que passa leva algo de mim e acrescenta algo a mim. Oh, se fosse o contrário! Se a pintura pudesse mudar, e eu pudesse sempre ser o que sou agora! Por que você pintou isso?’
(WILDE, Oscar. The Picture of Dorian Gray, pag. 25)

   No começo eu achei as reações de Dorian muito infantis. Muito melodramáticas. Com o passar da história, isso diminuiu. Se ele continuou dramático não foi em vão — ele tinha os porquês. Uma das cenas mais marcantes foi quando ele declarou ao Basil e ao Henry que estava apaixonado por Sibyl Vane, uma atriz que a cada noite vivia uma personagem de Shakespeare, então Basil e Henry foram ao teatro ver essa pessoa tão artística que tinha conquistado o coração de Dorian. Nesta noite, de tão apaixonada que estava, Sibyl não representou sua personagem bem, o que não impressionou os amigos de Dorian e o deixou muito decepcionado com ela. Conclusão: ele declarou que nunca mais a queria ver, e que não a amava mais. Cena interessante, não?
   Henry é um dos personagens mais instigantes da história. Cada fala dele é uma teoria, uma análise do mundo. Ele exalta as ações que a sociedade julga inaceitáveis e vive conforme a sociedade. Basil é seu oposto. Apesar de ambos compartilharem a fascinação pela aparência de Dorian, Henry quer vê-lo dar ouvidos aos seus desejos — seja quais forem —, e Basil quer que o jovem apenas seja bom.

Sim; ele tentaria ser para Dorian Gray o que, sem saber,
o jovem era para o pintor que fez o maravilhoso retrato.
Ele procuraria dominá-lo — já tinha, de fato, feito isso.
Ele faria dele aquele esplêndido espírito.
Havia algo fascinante no filho do Amor e da Morte.
 (WILDE, Oscar. The Picture of Dorian Gray, pag. 35)

   As cenas foram muito bem escritas e cativantes — com exceção de um capítulo que achei insuportável de ler: mas como eu li o livro em inglês (The Picture of Dorian Gray), pode ser que essa aversão ao capítulo tenha se dado porque eu não estava entendo muito e, do que entendi, ali tinha escrito coisas desnecessárias. De qualquer modo, eu recomendo o livro, com certeza.
   Após terminar a leitura, dei uma olhava nas primeiras páginas que vieram com extras sobre a obra e descobri que O Retrato de Dorian Gray pode ter sido uma autobiografia. Primeiro é dito que o retrato é como um confessionário dos católicos: o retrato absorve os pecados de Dorian assim como o padre no confessionário, para que as pessoas possam continuar com suas vidas. Segundo é dito que o livro foi como um “aviso” para o próprio Wilde: que sua maneira de viver talvez fosse levá-lo a um fim não muito agradável (ele foi envolvido em vários escândalos devido a sua homossexualidade ser considerada, em seu tempo, um crime).
   Ah, lembrando daquele filme… pois é, o Dorian é loiro no livro. No filme, bem… E aquele final — que final foi aquele? Lembrando que estou falando do filme que foi lançado em 2009. Aquele que foi lançado em 1945 recebeu o Oscar de Melhor Cinematografia Preto e Branco e foi indicado por melhor atriz coadjuvante para Angela Lansbury (que recebeu o Globo de Ouro na mesma categoria) e Melhor Direção de Arte.

‘Não, Harry. A alma é uma realidade terrível. Ela pode ser comprada, vendida, trocada.
Pode ser envenenada, ou aperfeiçoada. Há uma alma em cada um de nós. Eu sei disso.’
 (WILDE, Oscar. The Picture of Dorian Gray, pag. 215)


Escrito por MsBrown
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Menino do Pijama Listrado , de John Boyne


Heil Hitler”, disse, o que Bruno presumia ser outra forma de dizer: 
“Bem, até logo, tenha uma boa tarde”. 
(BOYNE. O Menino do Pijama Listrado, pag. 53)

   O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne, foi muito consagrado pela crítica e considerado uma possibilidade pelo USA Today de se tornar uma introdução ao tema nazismo tanto quanto O Diário de Anne Frank foi a sua época.
   O livro que tive em mãos esses dias não dizia muito sobre a história. Na orelha da capa, por exemplo, havia uma explicação de que era quase impossível moldar uma sinopse à trama, e a única dica que há é a que existe no livro um garoto de nove anos chamado Bruno (embora não seja um livro recomendado para essa faixa etária) que se depara com uma cerca. Pronto. Só isso. E os editores, confiantes, sabiam que essas informações seriam capazes de atiçar a curiosidade dos leitores.
O Menino do Pijama Listrado, originalmente
publicado em 2006
   Eu já tinha uma noção de que a história iria falar sobre o nazismo, mas nunca pensei que seria da maneira como tudo aconteceu. Nunca imaginei que seria narrada conforme Bruno, o protagonista de nove anos, enxergava tudo ao seu redor. E daí se nota a inocência, ingenuidade da criança que não sabe que seu país está passando por um momento tenso da História, e que o homem baixo de bigode esquisito que foi visitá-los certa vez em Berlim, o “Fúria” (porque Bruno não sabia falar Führer), é na verdade um ditador.
   A história se inicia com Bruno e sua família tendo de mudar de casa, porque o pai (que é comandante e muito importante para o Fúria) precisa se estabelecer nesse novo lugar — um lugar feio, com uma casa de apenas três andares, onde pode se avistar ao longe uma cerca de arame e outras casas estranhas, cheios de pessoas vestindo um pijama listrado e um boné, aparentemente tristes, como se nunca rissem na vida… Para Bruno, essa etapa é extremamente difícil, pois odeia este lugar e tem saudades de seus três melhores amigos. Mas não há escolha.

Bruno diminuiu o ritmo quando viu o ponto que virou uma 
mancha que virou um vulto que virou uma pessoa 
que virou um menino. 
(BOYNE. O Menino do Pijama Listrado, pag. 95)

   Certo dia, no entanto, ele resolve explorar o novo ambiente. E acaba encontrando um menino, do outro lado da cerca, aparentemente triste, e os dois começam a conversar. Bruno não entende como uma pessoa pode ser tão magra e cinza, e nunca poder atravessar a cerca o deixa chateado, mas a companhia encontrada é melhor que a solidão. O menino do outro lado da cerca se chama Shmuel, e é judeu. E, Bruno, apesar de ser inocente, sente que não deve contar sobre essa amizade a ninguém.
   A história, docemente escrita, carrega a tristeza e dor dos tempos do nazismo, numa forma sutil, às vezes despercebida, porque lemos, afinal, o que Bruno vê. Vencedor de dois Irish Book Awards, finalista do British Book Award e transformado em filme em 2008 pela Miramax, O Menino do Pijama Listrado é um referencial da História, escrito de forma a deixar as emoções infantis relevantes, ponto crucial, mas esquecido por muitos autores.

"Já não sinto mais nada", disse Shmuel.
(BOYNE. O Menino do Pijama Listrado, pag. 152)

Escrito por MsBrown
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