"A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdadeira" Theodor Adorno

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Doce Vingança de Nora Roberts

"Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plenamente os conflitos e dúvidas que a dominavam."
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Feérica, de Carolina Munhóz

"As fadas existiam porque humanos ainda acreditavam em sua existência. Violet decidiu que já era hora de mostrar que eles tinham motivo para isso."
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Especial de Aniversário de Clarice Lispector: A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens."
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Biografia de Harrie Stowe

"Eu sinto que agora é o tempo em que mesmo uma mulher ou criança que sabem falar uma palavra de liberdade e humanidade é obrigado a falar..."
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sábado, 27 de julho de 2013

#Clube do livro ~ Agosto / Olhai os Lírios do Campo

Livro: Olhai os Lírios do Campo

Publicação: 1938/Brasil

Autor: Érico Veríssimo


RESUMO DA OBRA

A obra retrata a vida de Eugênio Fontes, em Porto Alegre. Quando garoto, não conseguia sentir amor por seu pai e não acreditava em Deus, apesar de tentar sentir algo, de tentar não considerar a pobreza em que vivia um fator limitante de sua vida. Sofria do complexo de inferioridade, odiava como os pais encaravam o mundo. Quando jovem adulto, conheceu Olívia na faculdade de Medicina — nas primeiras páginas do livro é revelado que ela está a morrer — e tornou-se sua amiga e amante. Perto dela, ele fazia reflexões, entendia que precisava mudar seu modo de ser. Em sua trajetória, ele decide que é muito importante elevar sua posição social com um bom emprego de médico, uma tentativa desesperada de parar de se sentir inferior às pessoas, de não passar por necessidades e esquecer o passado.

O título do livro é baseado no trecho bíblico do Sermão da Montanha. Dividido em duas partes, o romance em primeira mão é denso, com personagens muito bem definidos. Na segunda parte, Eugênio lê cartas de Olívia e aqui é notado que ela é quase inumana, ou seja, perfeita, duma visão idealista e surreal do mundo e das pessoas. Os acontecimentos às vezes parecem aleatórios, sem dar ao leitor uma explicação razoável de porque estão sendo descritos. Mas o livro agradou muita gente e hoje é um clássico de Erico Veríssimo.

COMENTÁRIO DAS AUTORAS

O livro encanta porque trata detalhes simples da vida de um garoto pobre que simplesmente odeia sua vida, sabendo que esse sentimento é horrível e faz de tudo para poder sentir algo bom. Sua busca pelo amor ao pai, a crença em Deus e em si mesmo são fatores que Olívia o ajuda a enxergar.

É interessante como os anseios de Eugênio como médico são descritos, suas dúvidas em si mesmo, como ele trata Olívia — apenas uma confidente e amante quando ele precisa? E a intriga que há ao redor dela, a história triste que ela viveu…

O autor, no prefácio do livro, declara “não tenho muita estima por este romance. Acho-o hoje um tanto falso e exageradamente sentimental. Sua popularidade chega às vezes a me deixar constrangido.” Ele também diz “Há em Olhai os Lírios do Campo uma filosofia salvacionista barata que me faz perguntar a mim mesmo como pude escrever tais coisas, mesmo levando-se em conta o fato de haver atribuído essa filosofia a personagens do livro”. No entanto, o autor confessa que há partes que ele aprecie ainda e que o comovem no livro. De qualquer modo, foi esta a obra que possibilitou a Erico Veríssimo “fazer profissão da literatura”.

TRECHOS

(…) Se Deus existia, tinha esquecido o mundo, como um autor que esquece voluntariamente o livro de que se envergonha. Não, mas Deus não existia. Ele “queria não acreditar” em Deus. Além do mais, achava uma certa beleza no ateísmo. Pag. 54

(…) Ele queria apenas aceitar a sua gente, mas aceitá-la com naturalidade, sem forçar a própria natureza. Pag. 60

(…) Ele então compreendia num relance a enormidade de seu orgulho, o absurdo de sua vaidade, a fealdade de seu egoísmo. Um homem superior, ele? Como? Por quê? Que fizera de extraordinário? Tinha na cabeça meia dúzia de noções ainda confusas. Lera aferventadamente meia dúzia de livros famosos… Que era isso comparado com a luta silenciosa dos pais? Que era isso diante dos verdadeiros grandes homens da humanidade? Ele devia ser humilde, compassivo, tolerante… pag. 61

(…) Ângelo sorriu para o filho, não um sorriso de quem concede perdão, mas um sorriso servil e constrangido de quem pede perdão. Perdão por não ter dinheiro, por ser alfaiate, por andar malvestido, por não passar dum pobre-diabo. (…) Vinha lamber as mãos dos que lhe davam pontapés. Pag. 62

— Em vez de olhos tens dois espelhos convexos ou côncavos, sei lá! que deformam as imagens. Nunca vês as pessoas como elas são, nunca recebes as palavras com o sentido que elas realmente têm. É o teu maldito complexo de inferioridade. Pag. 174

— Há coisas engraçadas — disse Seixas, acendendo o cigarro. — Quando nós salvamos um doente é costume dizer: “Abaixo de Deus, doutor, eu devo a minha vida ao senhor”. Está bem. Não somos nada. Deve haver alguém maior que governa esta droga. Mas quando o doente morre, por que é que tiram Deus do brinquedo e só nos culpam a nós? Pag. 197




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quarta-feira, 29 de maio de 2013

#Clube do livro ~ Junho / Coraline

Livro: Coraline

Gênero: Fantasia

Publicação: 2002/Inglaterra

Autor: Neil Gaiman




Onde comprar:
Livraria Saraiva
Livraria Travessa

RESUMO DA OBRA

Coraline acabou de mudar de casa com seus pais. Nesta nova, por ser tão grande, sua família possui apenas uma parte. Há muitas janelas e portas. E uma porta que se abre para uma parede de tijolos. Aparentemente. Na vizinhança há as senhoritas Spink e Forcible que possuem cães, o velho senhor que conversa com ratos artísticos e há um gato que não fala.

Certo dia, entendiada, Coraline resolveu explorar a casa. E quando abriu aquela pequena porta, viu que havia um vão. E entrou. Do outro lado, a casa se parecia com a sua. Uma mulher, parecidíssima com sua mãe, se apresentou como “sua outra mãe”, assim como seu outro pai. E eles tinham botões no lugar dos olhos. As senhoritas Spink e Forcible faziam shows para uma plateia de cachorros. O velho senhor organizava o concerto para os ratos. Todos eles com botões no lugar dos olhos. E havia ainda o gato, que agora falava e teimava em dizer que era o mesmo gato dos dois lados da casa.

Coraline, de início, até gosta de viver neste mundo. Seus outros pais parecem se importar muito com ela, e sua outra mãe cozinha deliciosamente. (Na sua casa de verdade, seu pai sempre inventava novas receitas, o que deixava Coraline furiosa.) Mas nem tudo é perfeito. Isso porque sua outra mãe quer costurar botões no lugar de seus olhos e, depois disso, Coraline seria para sempre sua. Apesar dos brinquedos bacanas, da comida, do quarto, Coraline começa a ver que esse mundo não é tão maravilhoso assim, até porque seus pais verdadeiros desaparecem nas garras da outra mãe. E o amor de sua outra mãe é doentio, uma espécie de jogo ao qual ela pensa que Coraline irá perder e render aos seus encantos.

E quando a outra mãe é contrariada, ela não fica feliz. Coraline percebe esse lado cruel e tenta voltar para sua verdadeira casa. Mas, para isso, tem que inventar um jogo para salvar seus pais e outras três crianças com vidas já sugadas pela outra mãe.

COMENTÁRIO DAS AUTORAS

Coraline é uma obra encantadora, longe de ser apenas para crianças. Esse universo sombrio nos faz perceber a importância da família, de ser corajoso e tentar vencer a todo custo. O livro ensina que verdadeiramente não queremos tudo aquilo que é convidativo. Coraline é uma protagonista incrível, exploradora, cativante. O gato é outro personagem marcante, sempre ali para ajudar a menina.

A cena final, a batalha final mostra como temos aqui uma heroína que entendeu finalmente que seu lugar é com seus pais verdadeiros, não importa o quanto às vezes eles parecem se envolver demais no trabalho e deixá-la sozinha.

Neil Gaiman construiu um mundo tão sutilmente assustador. Se o objetivo era que ficássemos agoniados com os olhos de botão, ele realmente conseguiu. Aqueles olhos que você não sabe o que está se passando, e que se tornam amedrontadores por serem tão misteriosos.

TRECHOS
— Os ratos têm uma mensagem para você — sussurrou.
Coraline não sabia o que dizer.
— A mensagem é a seguinte: Não passe pela porta.­ — Fez uma pausa. — Isso faz algum sentido para você?
Pag. 23

— Gatos não têm nomes — disse.
— Não? — perguntou Coraline.
— Não — respondeu o gato. — Agora, vocês pessoas têm nomes. Isso é porque vocês não sabem quem vocês são. Nós sabemos quem somos, portanto não precisamos de nomes.
Pag.41

— Por que ela me quer? — Coraline perguntou ao gato. — Por que quer que eu fique aqui com ela?
— Quer algo para amar, acho — respondeu o gato. — Algo que não seja ela. Pode ser que queira algo para comer também. É difícil dizer com criaturas daquelas.
Pag. 65

Às vezes, Coraline esquecia-se de quem era enquanto explorava o Ártico, a floresta amazônica, ou a áfrica desconhecida em seus devaneios, e era somente quando lhe davam uns tapinhas nas costas ou chamavam o seu nome que coraline retornava de um milhão de milhas com um susto e, em frações de segundos, tinha que se lembrar de quem era, de qual era o seu nome e até mesmo quem estava lá.
Pag. 67

— Se você nem mesmo vai falar comigo — disse Coraline —, então vou explorar.
— É perda de tempo — disse o outro pai. — Não existe nenhum outro lugar a não ser aqui. Foi tudo o que ela fez: a casa, o terreno e as pessoas da casa. Ela fez e esperou. — Então ele pareceu constrangido e pôs o dedo em frente à boca novamente, como se tivesse acabado de falar demais.
Pag. 70

— Você realmente não entende, não é: — disse. Eu não quero tudo o que eu quiser. Ninguém quer. Não realmente. Que graça teria ter tudo o que se deseja? Em um piscar de olhos e sem o menor sentido. E daí?

Pag. 116
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quinta-feira, 4 de abril de 2013

#Clube do livro ~ Abril / O Mistério do Trem Azul

Livro: O Mistério do Trem Azul

Título original: The Mystery of The Blue Train

Publicação: 1928/Inglaterra

Autor: Agatha Christie





RESUMO DA OBRA


Em O Mistério do Trem Azul, temos o Trem Azul, também conhecido como o Trem dos Milionários, que, numa viagem, abriga Miss Katherine Grey, uma nova rica que lê romances policiais e acredita que as histórias não acontecem na vida real, Mrs. Ruth Kettering, que acabou de ganhar rubis do pai norte-americano Mr. Van Aldin e outros personagens que estão lá por coincidência… ou não. De qualquer forma, Mrs. Ruth é assassinada. As suspeitas caem em seu marido, o temperamental Mr. Derek Kettering (que vai herdar uma fortuna por isso) e também no Comte de la Roche, o amante de Ruth. Em diversos momentos ficamos tentados a acreditar que um dos dois homens é realmente o assassino, e isso pode ser verdade, porém os diálogos e pistas nos levam a diversos caminhos. O que sabemos com certeza é que Miss Grey teve uma longa conversa com Mrs. Kettering e horas depois a segunda morreu. Há outros personagens, como o secretário de Mr. Aldin, o major Knighton que se apaixona por Miss Grey e a família desta, que considera que a moça está vivendo uma incrível história e tem uma sorte imensa por estar envolvida num caso de assassinato, além da criada de Mrs. Kettering, Ada Mason, que é um tanto indecisa, e dos homens da polícia. E, é claro, o detetive Hercule Poirot, com a cabeça oval, o entusiasmo de sempre e a percepção incrível.

COMENTÁRIOS 

A presença de Hercule Poirot é o que faz rir. Seu jeito de ser, o modo como pensa que é o maior detetive do mundo e como às vezes reconhece que as pessoas riem dele, suas atitudes impulsivas e aparentemente malucas, tudo isso faz parte da personalidade do detetive que o mundo externo raramente sabe o que está pensando. Sobre o caso do assassinato, são muitas informações e até o leitor ligar todos os detalhes, pode ser que Hercule Poirot o faça antes. Agatha Christie é conhecida por seus romances policiais, e conduz o leitor direitinho pelo caminho… errado. É claro, só o detetive pode descobrir tudo.

A linguagem é bem rápida e há sentimento também. Não no início, mas lá pelo fim, quando Poirot tem uma amiga e quer cuidar dela, e as reações dela com os amores também é muito interessante. Apesar de sucinto, Christie consegue transmitir emoções e arrancar, de uma história sombria por envolver assassinato, alguma beleza e lições sobre a vida.

TRECHOS


— É possível que seja apenas minha imaginação — disse o homenzinho, enquanto polia eficientemente um dos garfos —, mas creio que tem uma certa ansiedade por participar de acontecimentos interessantes. Eh bien, Mademoiselle, a minha vida inteira tenho observado uma coisa: ‘Obtém-se tudo o que se quer!’ Quem sabe? — Seu rosto contraiu-se de maneira cômica. — É possível que receba mais do que esperava! Pag. 85

— Meu nome é Hercule Poirot — disse tranquilamente —, e sou provavelmente o maior detetive do mundo. Pag. 148

— Esta é Miss Grey. Sabe aquela encrenca do Trem Azul? Ela estava metida até as orelhas! Conversou horas com Ruth Kettering logo antes dela ser assassinada! É uma sorte incrível, não é? Pag. 163

— A senhorita confessou que lê história de detetive, Miss Grey. Deve saber que qualquer pessoa com um álibi perfeito é sempre mais que suspeita.
— E acha que a vida real também é assim? — perguntou Katherine, sorrindo.
— É possível. Seja como for, se eu fosse um criminoso profissional, não gostaria de ter Hercule Poirot atrás de mim. Pag. 174

— Dê-me um momento, Monsieur. Eu, eu tenho uma pequena ideia. Há muita gente que se tem rido das ideiazinhas de Hercule Poirot — mas sempre se enganaram! Pag. 181

— (…) Sua reputação é má, eu sei; mas com as mulheres — isso nunca é realmente um empecilho. Se o senhor fosse um homem de excelente caráter, de estrita moralidade, que jamais tivesse feito nada que não devesse e — possivelmente — feito tudo o que deveria ter feito — eh bien! então eu teria dúvidas quanto ao seu sucesso. O mérito moral, é preciso que compreenda, não é romântico. Ele é, no entanto, apreciado pelas viúvas. Pag. 202

Voilà — disse o estranho, arriando numa cadeira de braços de Madeira — eu sou Hercule Poirot.
— Sim, Monsieur?
— Não ouviu falar de mim?
— Jamais — disse Hipolyte.
— Permita-me informá-lo de que sua educação é falha. Meu nome está entre os grandes deste mundo. Pag. 253

— (…) Vocês contam mentiras e ficam pensando que ninguém vai saber. Mas há duas pessoas que sabem. Sim — duas pessoas. Uma é le bon Dieu…
Ele levantou uma mão para o céu, depois recostou-se na cadeira, fechou os olhos e murmurou, refestelado:
— E a outra é Hercule Poirot. Pag. 254
  
— Um espelho diz a verdade, mas cada um olha para o espelho de uma posição diferente. Pag. 278

— Mas eu sou um bom detetive. Desconfio. Não há ninguém nem coisa nenhuma que eu não suspeite. Não acredito em nada do que me é dito. Pag. 290




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terça-feira, 5 de março de 2013

#Clube do livro ~ Março / O Quinze

Livro: O Quinze

Publicação: 1930/Brasil

Autor: Rachel de Queiroz





RESUMO DA OBRA

O Quinze, de Rachel de Queiroz, trata-se da seca que ocorreu no Nordeste do Brasil em 1915. O cenário é o Ceará. Primeiro, o interior. Não há chuvas. As pessoas começam a se preocupar, a abandonarem gado, a se retirar para a capital, a fugir da miséria certa. Entre essas famílias há a do Chico Bento. Despedido do emprego, ele e sua família não consegue uma passagem de trem para a capital, de modo que têm que ir à pé. Com cinco crianças com fome, em trapos, essa família passa por dificuldades extremas. Mocinha, cunhada de Chico, que se retirou com eles, antes tão bem arrumada, agora já sabe que não importa bons modos, ela tem que ganhar de dinheiro de qualquer maneira… Chico Bento, antes tão calmo, agora quase tonto de fome é capaz de matar uma cabra de não pertence a ele… e as tripas é só o que lhe resta. Ele e sua esposa, Cordulina, assistem aos seus filhos sofrerem, a ficarem doentes, e nada podem fazer.
 
No interior há também o Vicente, que cuida de seu próprio gado, embora isso possa trazê-lo prejuízo. Ele é apaixonado por Conceição, sua prima, que faz faculdade na capital e só vem ao interior nas datas especiais, onde fica na casa da avó Dona Inácia. Ela é amante dos livros, e gosta do Vicente também. Com a seca, Conceição convence sua avó a mudar-se com ela para a capital, porém lá vê o sofrimento quando começa a trabalhar no Campo de Concentração — onde os retirantes vão para conseguir comida de graça do Governo, uma tentativa do mesmo para evitar que os famintos cheguem à Fortaleza. Vicente continua no interior, lutando contra a seca e a solidão.


De acordo com o Guia doEstudante, na época da seca, no Ceará, em média, 150 pessoas morriam por dia.

COMENTÁRIOS 


A escrita de Rachel de Queiroz é direta, mas aproxima a comparação dos homens com o ambiente. As árvores secas, os homens magros, miseráveis… A grande seca de 1915 foi fortemente relatada aqui, com personagens fictícios representando uma dura realidade do Nordeste brasileiro. Em O Quinze, as pessoas sonham, planejam, esperam pela chuva… mas nem tudo sai como planejado, e quando a chuva chega, ainda é necessário esperar um tempo para tudo se estabilizar.


Com um desfecho realista, Rachel de Queiroz marca muito com esta obra. Campos de Concentração, milhares de pessoas num lugarzinho, esperando por um pouco de comida. Outras pessoas pedindo esmola, às vezes levando crianças como “seus filhos” para ganharem mais dinheiro daqueles que podiam doar umas moedas… A morte, o cheiro do Campo, a fome que tonteava a família do Chico Bento e que a diminuiu… Tudo isso, e Rachel de Queiroz escreveu um livro tão importante para o Brasil quando tinha vinte anos!

TRECHOS



E Chico Bento pensava: — Por que, em menino, a inquietação, o calor, o cansaço, sempre aparecem com o nome de fome? Pag. 54
 
A rede de Cordulina que tentava um balanço, para enganar o menino — pobrezinho! o peito estava seco como uma sola velha! — gemia, estalando mais, nos rasgões.

E o intestino vazio se enroscava como uma cobra faminta, e em roncos surdos resfolegava furioso: rum, rum, rum… Pag. 61


Dia a dia, com as forças que iam minguando, a miséria escalavrara mais a cara sórdida, e mais fortemente os feria com a sua garra desapiedada. Pag. 71
  
E longamente ali ficou, sorvendo o cheiro forte que vinha da terra, impregnado dum calor de fecundação e renovamento, deixando que se lhe molhasse o cabelo revolto, e lhe escorresse a água fria pela gola, num batismo de esperança, a que ele deliciadamente se entregava, sentindo nas veias, mais ativo, mais alegre, o sangue subir e descer em gólfãos irrequietos. Pag. 125
 

— Ora o amor!… Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar… eu, pelo menos, nunca o vi… o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação muito obscuro e tímido, a que a gente obedece conforme as conveniências… Aliás, não falo por mim… que eu, nem esse instinto… Tenho a certeza de que nasci para viver só… Pag. 136

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