"A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdadeira" Theodor Adorno

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Doce Vingança de Nora Roberts

"Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plenamente os conflitos e dúvidas que a dominavam."
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Feérica, de Carolina Munhóz

"As fadas existiam porque humanos ainda acreditavam em sua existência. Violet decidiu que já era hora de mostrar que eles tinham motivo para isso."
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Especial de Aniversário de Clarice Lispector: A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens."
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Biografia de Harrie Stowe

"Eu sinto que agora é o tempo em que mesmo uma mulher ou criança que sabem falar uma palavra de liberdade e humanidade é obrigado a falar..."

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri

TIÃO – Ninguém vale nada, pai!
OTÁVIO – Como você tem medo!
TIÃO (irritado) – Mas medo de que, bolas!
OTÁVIO (imperturbável) – De ser pobre… da vida da gente!
TIÃO (com um gesto de quem afasta os pensamentos) – Ah! Tou é nervoso… tou apaixonado, pai… Não liga, não! 
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 42)

  Eles Não Usam Black-tie é uma peça de teatro brasileira escrita em 1955 por Gianfrancesco Guarnieri. De acordo com Delmiro Gonçalves, a peça "foi uma das mais sérias e melhores tentativas de uma dramaturgia urbana brasileira". É uma história despretensiosa sobre a vida de alguns exemplares da classe de operários de uma favela carioca nos anos 1950.
   Em tempos de ocorrer uma greve dos metalúrgicos, com o total apoio de Otávio, Tião, seu filho, descobre que vai ser pai do bebê de Maria. Assim, o jovem de aproximadamente 20 anos quer estabilidade financeira para sustentar sua pequena família e poder sair do morro. Tião foi criado pelos padrinhos, na cidade, e servia como babá para os filhos deles. Nunca se adaptou a vida no morro, sendo operário, tendo que fazer greve para que o salário aumente em mixarias. Tião observa a vida corrida e pesada de Romana, sua mãe, sempre tendo que cuidar do barraco, de lavar roupas para outras pessoas e cuidar de seu marido e dois filhos, e não quer que o mesmo aconteça a Maria.

TIÃO – (…) Nesse mundo o negócio é dinheiro, meu velho. 
Sem dinheiro, até o amor acaba! Pois eu vou sê feliz, vou tê amo, 
e vou tê dinheiro, nem que pra isso eu tenha de puxá saco de meio mundo! 
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 68)

   Tião trabalha na mesma fábrica que seu pai, e com a greve, se aderir, há a possibilidade de ganhar aumento ou ser despedido. Se não aderir a greve, será visto como pelego e traidor, porém poderá se manter estável na fábrica. Em poucas páginas, cerca de 100, as dúvidas e medos de Tião se apercebem pelas falas e maneiras, muitas vezes sob palavras de confiança, escondidas e abafadas no meio de outras personagens que a ideologia de correr atrás dos direitos é o motor da vida.
   Sempre quis ler Eles Não Usam Black-tie. Lembro que o encontrei na biblioteca da escola de Ensino Médio que frequentei porém nunca fui tentada o bastante para pegá-lo emprestado. Agora adquiri um exemplar e consegui ler e me emocionar com as personagens, com seus medos, ideologias, sentimentos, e principalmente no final, que achei que acabou como deveria, ficou aquela sensação estranha de muita luta emocional e pouca conquista, bem semelhante à realidade. A peça é para ser popular, foi escrita como fala o povo, e é sobre as lutas do povo. É sobre as pessoas que não usam black-tie, mas que acordam tão cedo para trabalhar e ter um tempinho à noite para ser feliz, ao som de um samba tocado por Juvêncio, um manco, numa noite chuvosa...
Eles Não Usam Black-tie, de
Gianfrancesco Guarnieri

Nosso amor é mais gostoso,
Nossa saudade dura mais
Nosso abraço mais apertado
Nós não usa as "bleque-tais".

Minhas juras são mais juras
Meus carinhos mais carinhoso
Tuas mão são mãos mais puras,
Teu jeito é mais jeitoso...
Nós se gosta muito mais,
Nós não usa as "bleque-tais"...
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 24)

   A peça possui 3 atos e 6 quadros, e é ambientada no barraco de Romana. Foi representada pela primeira vez em 1958, no Teatro de Arena de S. Paulo, com direção de José Renato e performada por Miriam Mehler como Maria, Gianfrancesco Guarnieri como Tião, Lélia Abramo como Romana e Eugênio Kusnet como Otávio. Em 1981, foi lançado o filme com mesmo nome dirigido por Leon Hirsziman, e estrelado por Gianfrancesco Guarnieri como Otávio, Fernanda Montenegro como Romana, Carlos Alberto Riccelli como Tião e Bete Mendes como Maria, com música tema de Adoniram Barbosa, Chico Buarque de Hollanda e Gianfrancesco Guarnieri. Leon Hirsziman recebeu o prêmio FIPRESCI e o Grande Prêmio Especial do Juri no Festival de Veneza, o prêmio Grand Coral no Festival de Havana, Guarnieri recebeu o troféu APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) por Melhor Ator, e ganhou o Margarida de Prata. O filme recebeu atenção especial de John D. French, um professor do Departamento de História da Duke University, que pesquisou a representação social do filme e a verossimilhança com a classe operária brasileira dos anos 50 e 70, clique aqui.
   Guarnieri identifica sua obra como "uma visão romântica do mundo. Pressupõe uma série de valores básicos, imutáveis, através dos quais os problemas surgem, estourando os conflitos, os homens se debatem, mas tudo chegará a bom termo graças a uma providencial ordem natural das coisas, atingindo-se no tempo a harmonia geral esperada, em virtude de uma tomada de 'consciência'. Black-tie, no fundo, é uma peça idealista" que "reflete corretamente muitos aspectos da realidade brasileira".
   Penso que o sucesso da obra se dá por sua sinceridade, por sua representação sócio-política brasileira, pela escrita coloquial e por todo o sentimentalismo que as falas de Maria e Tião se inundam, contrapostas pelas falas de vivência dura de Romana e ideologias políticas de Otávio. É uma história atemporal.

ROMANA – É a verdade, e da verdade ninguém escapa, meu nego. 
E depois, cadeia foi feita pra ladrão, caixão pra defunto. 
Pra que ficá enganando os outros. É o fim mesmo. É ou não é minha filha? 
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-tie, p. 36)

Escrito por MsBrown
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domingo, 3 de agosto de 2014

Focus, de Arthur Miller


No espelho do banheiro, o banheiro que usava há quase sete anos, 
estava vendo o que podia ser adequadamente descrito como 
a cara de um judeu. Realmente, um judeu entrara em seu banheiro. 
Os óculos fizeram exatamente o que temia que fizessem ao seu rosto, 
mas agora era pior, porque era real.
(MILLER, Arthur. Focus, pag. 32)

    Focus foi o romance de estreia do escritor estadunidense Arthur Miller, mais conhecido por suas peças de teatro. Lançado em 1945, trata do anti-semitismo praticado em Nova York, nos EUA, no final da Segunda Guerra Mundial.
  Lawrence Newman é um empregado da Company, uma empresa anti-semita muito respeitada no país. Mora com a mãe e não se deixa abalar com os problemas alheios, como uma mulher gritando no meio da noite, clamando pela polícia. Seu vizinho, Fred, é um homem que apoia a limpeza da cidade — com “limpeza”, leia-se “expulsão dos judeus que ali vivem”. O único judeu do quarteirão, Mr. Finkelstein, é um vendedor de jornais que não interfere de maneira negativa os outros moradores, apesar de ser tratado como “criminoso” por ser judeu.
   A vida de Newman ficara um tanto monótona e acomodada, depois de ter participado da guerra e ser responsável pela morte de um alemão. Agora possuía um emprego como recrutador na Company. Quando seu chefe o chama para uma conversa, tudo como conhecia começa a mudar, ou melhor, todas as máscaras começam a se desvanecer.
   O chefe observa que Newman contratou uma mulher inadequada para a profissão de datilógrafa, e esse erro era devido ao fato de Newman não enxergar bem. Ao passar no oculista e experimentar em casa os novos óculos, Newman se espanta com o que enxerga no espelho. Um judeu. Newman é descendente de ingleses e é cristão, porém seu rosto se assemelha a de um judeu quando usa óculos.
   De início, tenta não dar muita importância ao fato. No entanto, é despedido da Company porque sua aparência levou seus superiores a questionarem sua identidade. E não para por aí. Na procura por um novo emprego, é sempre visto como um judeu; seus vizinhos começam a estranhá-lo e a Frente Cristã passa a tê-lo e à sua mulher Gertrude Hart e ao Mr. Finkelstein como alvos para uma limpeza.
   O que parecia simples se torna o maior problema que lhe fora submetido: a identidade alheia, o ser judeu.

Focus, de Arthur Miller
   Então, que diabos poderia fazer para mostrar a essa gente que ainda era Lawrence Newman?
   O rosto. Parou junto a um poste de luz numa esquina. Mas o seu rosto não era ele. Ninguém tinha o direito de menosprezá-lo por causa do rosto. Ninguém! Ele era ele, um ser humano com uma biografia definida, e ele não era esta cara que parecia nascida de outra biografia, estranha e suja. Estavam querendo transformá-lo em duas pessoas! Olhavam para ele como se fosse culpado de alguma coisa, como se fosse feri-los! Não podiam fazer isso! Que não ousassem fazer-lhe aquilo, pois não era outra pessoa senão Lawrence Newman…!
(MILLER, Arthur. Focus, pag. 72)

   Demorei algum tempo para terminar de ler o livro, por conta da vida universitária. Mesmo lendo-o de gole em gole, consegui me conectar com a história e dizia a algumas pessoas que estava lendo um livro incrível. Quando comprei Focus, não fazia ideia do enredo. Não havia nada escrito na contracapa e também não havia orelhas. O nome do autor me impeliu a adquirir o livro, pois já tinha lido sua peça de teatro ganhadora do prêmio Pulitzer Morte de um Caixeiro Viajante, resenha aqui, e não me arrependo. Mergulhei numa história com o tema que tanto é analisado mas que foi escrito de uma maneira diferente na época em que tudo estava acontecendo. A audácia do autor foi imensa ao criar um personagem cristão e descendente de ingleses que, ao usar óculos, tinha a aparência de um judeu e por isso passou a sofrer preconceito. Colocou os leitores na pele da personagem principal: e se começassem a nos enxergar pelo que não somos e praticassem violência conosco por conta disso? Curiosidade: Miller era filho de um casal de imigrantes judeus polacos.
   A estratégia de Miller me lembrou a estratégia de Bernardo Guimarães na criação de A Escrava Isaura, clique aqui, uma escrava branca linda. Guimarães sabia que as mulheres de classe média leriam o livro e a maneira para fazê-las entender a escravatura como algo abominável, colocando uma escrava branca, que se assemelhava a elas, porque ler sobre uma escrava negra sofrendo não seria nada inédito e não criaria empatia.
   Em 2001, foi lançado o filme baseado em Focus, dirigido por Neal Slavin e estrelado por William H. Macy como Lawrence Newman, Laura Dern como Gertrude Hart, David Paymer como Mr. Finkelstein e Meat Loaf Aday como Fred.
  A linguagem é fácil, fluida. O livro possui pouco mais que 200 páginas de vários momentos de tensão. Minha opinião é que Arthur Miller escolheu a história certa para estrear no mundo do romance literário, e deixa suas palavras flutuando na luta eterna dos judeus. Acontecimentos recentes provam que 1945 permanece mesmo em 2014.

— (…) O senhor olha para mim e não me vê. Vê outra coisa. 
Pode me dizer o que é? É isto o que não entendo. Contra mim 
o senhor não tem nada, é o que diz. Então, por que quer me 
tirar daqui? O que é que vê que o deixa tão furioso quando olha para mim?
(MILLER, Arthur. Focus, pag. 166)


Escrito por MsBrown
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sábado, 19 de julho de 2014

Moise e o Mundo da Razão, de Tennessee Williams

Moise e o Mundo da Razão,
de Tennessee Williams
— É que o meu mundo não é o mundo de vocês. Seria uma insuportável banalidade proclamar que cada um de nós é o habitante único de seu mundo particular. De forma que eu não conheço o mundo de vocês e vocês não conhecem o meu. A mim, é claro, me parece perfeitamente evidente que o mundo de vocês é, relativamente, um mundo que contém certa dose de razão.
(WILLIAMS, Tennessee. Moise e o Mundo da Razão, pag. 22)

   Moise e o Mundo da Razão (Moise and the World of Reason), de Tennessee Williams, é o primeiro romance escrito pelo autor estadunidense, lançado em 1975. Conhecido por suas peças de teatro, mais uma vez os temas que o marcaram voltam à tona em uma história sobre homossexualidade, perda, devaneios e lembranças do passado.
   O livro é narrado pela personagem que se designa como “ilustre escritor fracassado”, e que não cita seu nome. É um homem de trinta anos que tem como amante Charlie, um homem de vinte anos, e possui grande carinho por Moise, uma pintora que, logo no início da história, faz seu discurso sobre estar deixando o mundo da razão. Conhecemos Lance, o primeiro amor do escritor, “um turbilhão negro sobre o gelo”, que morreu patinando no gelo e deixou ao escritor a parte do armazém em que moravam, “o retângulo com ganchos”.

Durante treze anos não houve nada de grande 
importância na minha vida além daquele patinador no gelo, 
de Moise e deste meu costume de procurar escrever as coisas 
em detalhe numa longa série de cadernos Blue Jay.
(WILLIAMS, Tennessee. Moise e o Mundo da Razão, pag. 57)

   Agora, escrevendo nos cadernos Blue Jay e nas cartas de rejeição das revistas e editoras, sentado no BON AMI, um caixote, o “ilustre escritor fracassado” relata como Moise fez seu discurso e o efeito dele no restante do livro. A história é dividida em quatro capítulos; penso eu que se houvessem capítulos menores e talvez fosse dividida em quatro partes, seria mais interessante e a leitura mais dinâmica, mais envolvente.
   Tendo lido outros livros do autor, esperava que este em questão me emocionasse mais, assim como Um Bonde Chamado Desejo, por exemplo. A história não me tocou, exceto em raros momentos. Pareceu-me uma aventura sem nexo, retalhos de acontecimentos que a personagem principal descrevia, um começo inesperado com um final inesperado, e não no bom sentido. Tennesse Williams deixou Moise e o Mundo da Razão como sua despedida do mundo literário. O simbolismo de sua obra deve ser mais estudado, e recomendo às pessoas que, se abrirem a mente, possam desfrutar dessa história que coloca em questão o mundo da razão.

— Eu diria que na sua idade já devia ter aprendido que tem de suportar uma porção de coisas desagradáveis.
— Sim, inclusive a mim mesmo. Me lembro de que uma vez o animador de um programa de TV me perguntou: “O senhor gosta de si mesmo?” Respondi com um olhar vazio e um silêncio, e ele insistiu: “O senhor adora a si mesmo?”, e finalmente respondi: “Bom, eu estou amarrado a mim mesmo e tenho de me aturar de qualquer maneira”.
(WILLIAMS, Tennessee. Moise e o Mundo da Razão, pag. 109)

Escrito por MsBrown
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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Extraordinário, R.J. Palacio

NÃO JULGUE UM LIVRO MENINO PELA CAPA CARA

   O que leva uma criança a adorar usar um capacete de astronauta, mesmo em pleno verão? O que leva o diretor da escola Beecher Prep a criar um “comitê de boas vindas” que favorece apenas um aluno? Pais superprotetores, outros negligentes, pessoas extraordinárias sem ninguém para ver e um menino que não passa despercebido em lugar algum: tudo isso e mais um pouco se relaciona de maneira maravilhosa no primeiro livro de R.J. Palacio, Extraordinário (Wonder), lançado em 2012 nos Estados Unidos.
   August Pullman é a criança em questão. O centro das atenções em casa, na escola e onde quer que vá. Seu rosto, incomum, é capaz de despertar gritos de outras crianças e reações quase repulsivas de adolescentes e adultos. Ingressante do quinto ano na Beecher Prep, calouro na situação de estudar em escola pois passou os outros anos tendo aulas em casa, August precisa de muita paciência e perseverança para enfrentar o início do Ensino Fundamental II, o que é um pouco apavorante para qualquer criança. August tem disostose bucomaxilofacial, uma anormalidade facial que o submeteu a várias cirurgias.

De todo modo, não é que eu me importe com o modo como as pessoas reagem a mim. Já disse um zilhão de vezes: estou acostumado com isso a esta altura. Não deixo que me incomode. É como quando você sai e está chuviscando. Você não calça galochas por causa de um chuvisco. Nem sequer abre o guarda-chuva. Você anda na garoa e mal percebe que o cabelo está ficando molhado.
(PALACIO, R.J. Extraordinário, pag. 213-214)

Livro de estreia de R. J. Palacio,
Extraordinário
   O menino é muito amado em casa pelos pais e pela irmã Via. Adora sua cachorra Daisy, pois ela não tem repugnância dele. Na escola, Summer é uma das garotas que se torna sua amiga por opção, e Jack Will não consegue resistir a esse menino divertido. Julian, porém, é um dos alunos que escolhe tornar a vida de August mais difícil. Imagine o primeiro dia de aula numa escola nova. Imagine que tudo seria melhor se você tivesse amigos imediatamente. Agora imagine uma criança nessas condições que ainda por cima tem um rosto “anormal”. Imagine, sobretudo, os olhares de todos que o cercam. Essa é a vida de August que tenta deixar o cabelo mais grande para que seu rosto não apareça muito, que anda sempre de cabeça baixa para não ser notado e que, quando criança, usava um capacete de astronauta sempre, porque, como um dos personagens reflete, as pessoas achavam mais normal uma criança estar o tempo todo de capacete do que ver o rosto de August.
  Esse livro é incrível. Os capítulos são curtos, a história fluida, personagens bem construídos, um teor melancólico sendo quebrado de instante em instante por momentos de gentileza. É divido em partes, sendo estas narradas por August, Via, Summer, Jack, Justin e Miranda, com frases de livros, músicas e outros, sendo interessante ver o desenrolar dos acontecimentos sob várias perspectivas. É ótimo ver como August enfrenta os desafios, como as pessoas que o amam agem e tudo o que eu mais queria era que o final fosse feliz. A Veja.com exemplifica a história na seguinte frase: “O ponto de vista de uma criança que, ciente de sua estranheza e de seu deslocamento no mundo, cria um manifesto em favor da gentileza”. Eu não poderia concordar mais. E não me importa que o discurso do Sr. Bufanza (o diretor da escola) na formatura seja um tanto clichê. Valeu a pena ter lido!

August é o Sol. Eu, a mamãe e o papai giramos em volta dele. O restante de nossa família e de nossos amigos são asteroides e cometas flutuando ao redor dos planetas que orbitam o do Sol. O único corpo celestial que não gira em volta de August, o Sol, é Daisy, nossa cadela, e isso porque, para seus olhinhos caninos, o rosto do August não é muito diferente do rosto de qualquer outro ser humano. Para Daisy, todos os rostos são parecidos, chatos e pálidos como a Lua.
(PALACIO, R.J. Extraordinário, pag. 89)

    No site da R.J. Palacio, a autora conta sua inspiração. A inspiração é uma criança, menina, que estava perto de uma sorveteria em certa ocasião. O filho de três anos da autora, ao vê-la, começou a chorar muito alto. A menina tinha uma anormalidade craniofacial. Palacio se afastou porque não queria magoar os sentimentos da menina, ao perceber que seu filho se assustara. Na mesma noite, a música Wonder, de Natalie Merchant, tocou na rádio. Assim nasceu o livro Extraordinário. Um livro de um menino que, apesar de passar pela mesma situação quase todos os dias, às vezes ainda se surpreende com as pessoas.

Doctors have come from distant cities just to see me
Stand over my bed, disbelieving what they're seeing
They say I must be one if the wonders of god's own creation
And as far as they see they can offer no explaination

(MERCHANT, Natalie. Wonder)
   
Escrito por MsBrown
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Hiato do Blog

    Olá, leitores do blog As 1001 Noites!

   Por conta de problemas pessoais (faculdade, família, planos para o futuro), o blog entrará em hiato, por tempo indeterminado, ou seja, a partir deste post, pode demorar para outro ser escrito e postado.
   Talvez quando voltar, venha em grande estilo, com várias resenhas, artigos e biografias. Veremos!
   Aproveitando o espaço, gostaria de agradecer a todos os leitores, aos seguidores aqui e no Facebook. Não há escritor sem leitor. Apreciamos as pessoas que nos surpreenderam com comentários, sempre construtivos, e desejamos que o blog de vocês tenha sucesso!

Atenciosamente,
MsBrown
Trecho de Extraordinário, de R.J. Palacio
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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Doce Vingança, de Nora Roberts

Queria um drinque, não o café e o chá que sempre eram servidos, mas um vinho. Apenas um copo de vinho gelado. Mas nenhum vinho era permitido em Jaquir, enquanto o estupro sim, pensou ela, ao encostar um dedo no rosto dolorido. Surras e véus, chamadas para a oração e poligamia, mas não uma gota de Chablis ou um cálice de Sancerre.
(ROBERTS, Nora. Doce Vingança, pag. 29-30)

   A Princesa Adrianne é uma criança em Jaquir, um país no Oriente Médio. Lá, é acostumada às mulheres no harém, sempre falando sobre sexo, compras e jóias, mulheres que, submissas ao homem, devem usar abaayas para não tentá-los. Mas ela nunca pode se acostumar à constante repressão do homem que, além de seu pai e Rei de Jaquir, desposou a linda estrela de cinema Phoebe Spring entregando a ela o famoso colar O Sol e a Lua, de valor inestimável, com a promessa de uma vida exótica e bela longe daquilo que a atriz conhecia, apenas para trocá-la por outras mulheres e amaldiçoá-la por ter dado à
Doce Vingança, de Nora Roberts,
lançado em 1988
luz uma filha, Adrianne, e não um filho.
   O ponto inicial de Doce Vingança (Sweet Revenge), de Nora Roberts, lançado em 1988, é a infância turbulenta por qual Adrianne vive, no castelo em Jaquir, aprendendo que a mulher, de cabeça baixa, deve dar bons filhos ao marido e ser uma serva de Alá, isso porque, se fizer diferente, a polícia religiosa a castigará. Conhecendo as jóias desde criança, ela sabe perfeitamente diferenciar uma falsa de uma verdadeira. Sua obsessão pelo O Sol e a Lua crescem à medida que, após fugir de Jaquir para os Estados Unidos com a mãe quando tinha oito anos e testemunhar a volta decadente da atriz Phoebe Spring ao cinema, a mãe droga-se cada vez mais e é mais ainda manipulada por agentes. Adrianne sente que precisa deste colar, que o Rei confiscou da mãe, para sua vingança.
   Phillip Chamberlain, um inglês, agora é um agente da Interpol. Antes, fora um ladrão tão bem sucedido que levava uma vida confortável, e até propiciara à mãe uma vida melhor. Aposentado de seus roubos de jóias, ele tem a missão de encontrar O Sombra, o ladrão de jóias mais procurado pela polícia. O que Phillip provavelmente não esperava era encontrar Adrianne, a princesa, e apaixonar-se por ela, apesar da frieza e medo inicial que ela radia. Os dois, combinando conhecimentos acerca de jóias e ações, embarcam numa aventura muito bem descrita por Nora Roberts, onde há suspense, romance, cada cenário pintado meticulosamente para dar ao leitor a impressão de assistir bem de perto todos os acontecimentos.

— Mas O Sol e a Lua significa tudo. Não há nada que valha mais em Jaquir, não pelo valor monetário. Está além de qualquer preço. É uma questão de orgulho e força. Se sair das mãos da família real, haverá revolução, derramamento de sangue, o desmoronamento do poder. A inquietação nas fronteiras de Jaquir varrerá o país.
(ROBERTS, Nora. Doce Vingança, pag. 361)

   É uma história sobre família, sobre reconhecimento do amor e da paciência, o doce sabor da vingança que é capaz de alimentar boa parte da vida de alguém, e é uma história sobre não ser generalista. O que quer que as mulheres do harém sintam em sua realidade, o que quer que Adrianne tenha aprendido no mundo Ocidental, o que quer que a religião em Jaquir pregue ou as crenças cristãs, cada pessoa tem sua maneira de encarar a realidade, e muitas conseguem conviver e entender aquilo que outras não podem compreender.
   Lembro que tive esse livro em mãos durante alguns anos. Sempre me interessou, porém por algum motivo só agora consegui pegá-lo novamente e ler até o fim. Ainda bem que fiz isso! Devo confessar que Nora Roberts sempre me surpreende, não por ter surpresas durante o livro, mas pela sua maneira de escrever que, parecendo tão simples e despretensiosa, é capaz de marcar a história em meus pensamentos, e nos pensamentos de vários outros leitores. O livro é divido em três partes, com subtítulos seguidos de citações, sendo eles: O Amargo, O Sombra e O Doce.
   Recomendo o livro, pois, além do nome de Nora Roberts falar por si mesmo, tão reconhecimento que ela possui atualmente, é uma história inteligente, muito bem escrita, que abrange ambos o mundo ocidental e oriental, e é um ótimo lembrete do feminismo, o que isso significa de um lado do oceano e do outro.

Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plenamente os conflitos e dúvidas que a dominavam. Era princesa de uma terra que não era mais a sua. Era visitante num país que continuava a lhe ser estranho. Era uma mulher que tinha medo de ser uma mulher. Uma ladra que queria justiça.
(ROBERTS, Nora. Doce Vingança, pag. 252)


Escrito por MsBrown
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Caminhando na Chuva, de Charles Kiefer

Acho que o homem é um amontoado de leituras, de músicas, 
de pinturas e de genes. Penso que o meio influencia a formação 
da personalidade, não influencia?  
(KIEFER, Charles. Caminhando na Chuva, pag. 13)

   Em 1982, Túlio Schüster tem 20 anos e mora em Pau-d"Arco, cidade do interior do Rio Grande do Sul. Neste ano decide registrar suas memórias, contando partes de sua infância, de seus pais, seus avós, de seu primeiro amor chamado Rosana (que Porto Alegre comeu). Esta é a história desenvolvida em Caminhando na Chuva, de Charles Kiefer.
Caminhando na Chuva, de Charles Kiefer
   Túlio é filho único, mas nem por isso teve tudo o que sempre quis. Seu pai é caminhoneiro, sua mãe costureira, e são separados. Sendo pobre, Túlio percebe algumas limitações em sua infância e adolescência. Tímido, gosta de livros (há muitas referências em sua narração, incluindo Machado de Assis, Loyola Brandão, Proust, Graciliano Ramos), gosta de pescar, ouvir histórias de seu avô e admira as mulheres. Com capítulos curtos e apenas 113 páginas, o livro é tocante, parece que é a vida do próprio autor sendo contada para nós, talvez até durante um dia de chuva, dentro de uma sala aconchegante com a iluminação um pouco fraca. É mais um livro de memórias da personagem do que um livro de amor homem-mulher, embora esse elemento esteja presente nas mais simples frases, quando o narrador cita Rosana aqui e ali, e quando finalmente nos apresenta a ela, a Rosana que Porto Alegre comeu.

Cultura é uma forma de status. 
(KIEFER, Charles. Caminhando na Chuva, pag. 81)

   A única coisa que me irritou foi a falta de justificação do texto, ou seja, o texto não estava alinhado à margem direita. Depois de algum tempo, porém, quando estava completamente envolvida com a vida de Túlio, isso parou de me incomodar. A personagem de Túlio começa tentando não ser pretensiosa, se perde em pensamentos, sempre comentando isso ao decorrer do assunto, sempre tentando voltar ao que devia falar desde o início; no meio Túlio para de divagar tanto, consegue manter o pensamento em linha mais reta. Não há muito o que falar deste livro, pois é um retalho de fatos lembrados, e se eu dizê-los a vocês, acabarei reescrevendo a história.


Quando chove — gosto de dia de chuva —, saio a caminhar. 
Por que prefiro caminhar quando chove? Os outros, os habitantes 
bisbilhoteiros e chatos, estão em suas casas, por isso saio na chuva. 
Não faz mal que me molhe, pegue gripe, resfriado, essas coisas. 
Vale a pena, vale mesmo. A cidade solitária, sem o ruído desses 
habitantes barulhentos, se abre, se dá. 
(KIEFER, Charles. Caminhando na Chuva, pag. 18)

   A edição que li, que foi lançada em 2012, possui dois especiais, uma "Fortuna Crítica": A Leitura em Caminhando na Chuva, de Charles Kiefer, por Sissa Jacob e O Memorial Adolescente de Charles Kiefer, por Deonísio da Silva. O primeiro, publicado originalmente na revista Leitura, Teoria & Prática, de Campinas, é uma análise da pessoa que Túlio se tornou e a relação dele com os livros, com a literatura, e porque ela é tão importante em sua vida. O segundo, da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, nos coloca na história do Brasil e na repressão existente durante a infância e adolescência de Túlio, por conta da ditadura, levando-nos a compreender melhor as limitações que o menino percebeu ao seu redor, destacando um importante ponto: 

Túlio lê muita ficção. E a ficção o salva, na medida em 
que lhe possibilita inventar também a sua história.
(SILVA, Deonísio. O Memorial Adolescente de Charles Kiefer)

Escrito por MsBrown
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