"A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdadeira" Theodor Adorno

domingo, 20 de outubro de 2013

Morte e Vida Severina e Outros Poemas Para Vozes, de João Cabral de Melo Neto

   Morte e Vida Severina e Outros Poemas Para Vozes, de João Cabral de Melo Neto, é a coleção de quatro poemas do autor com temas parecidos: todos sugerem a morte e a vida no Nordeste. É um livro dedicado a Rubem Braga e Fernando Sabino por terem a ideia
Poemas de João Cabral de Melo Neto
“deste repertório”.
   O que me chamou a atenção para o autor João Cabral de Melo Neto foi a indicação de minha professora do Ensino Médio. Decidi ler, depois de um tempo, Morte e Vida Severina. Pesquisei e encontrei na internet o poema adaptado em HQ, clique aqui. Gostei tanto que fui procurar na universidade o livro para ler novamente e encontrei este que traz mais três poemas. O que eu posso dizer com certeza é: ainda bem que li.
   O Rio, poema que dá início à obra, de 1953, relaciona a viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife. O Capibaribe percebe as alterações na paisagem natural e urbana conforme corre seu curso, até desaguar no oceano. É um poema “diário de bordo”, em que o personagem é o próprio rio, e expõe a miséria que encontra pelo caminho, a miséria interior e exterior das pessoas. Não gostei muito deste poema; na verdade, me pareceu um infinito “guia pelos rios do Nordeste”.


Para trás vai ficando
a triste povoação daquela usina
onde vivem os dentes
com que a fábrica mastiga.
Dentes frágeis, de carne,
que não duram mais de um dia;
dentes são que se comem
ao mastigar para a Companhia;
de gente que, cada ano
o tempo da safra é que vive,
que, na braça da vida,
tem marcado curto o limite.
Vi homens de bagaço
Enquanto por ali discorria;
Vi homens de bagaço
Que morte úmida embebia. 
(NETO, João Cabral de Melo. O Rio, pag. 27-28)

   Em Dois Parlamentos, de 1960, o sertão é comparado a um cemitério auto-suficiente e posteriormente o cenário é o de decadência dos engenhos que perderam espaço para as usinas, e os trabalhadores de engenho aqui são chamados “cassacos”, que é o nome popular para o gambá no Pernambuco. É uma visão realista e triste de tudo o que estava acontecendo no Pernambuco. Pessoalmente, o poema me emocionou em alguns momentos, pela simplicidade da escrita e as comparações.


— Todos esses mortos parece
que são irmãos, é o mesmo porte.
— Se não da mesma mãe,
irmãos da mesma morte.
— E mais ainda: que são irmãos gêmeos,
do molde igual do mesmo ovário.
— Concebidos durante
a mesma seca-parto.
— Todos filhos da morte-mãe,
ou mãe-morte, que é mais exato.
— De qualquer forma, todos,
gêmeos, e morti-natos. 
(NETO, João Cabral de Melo. Dois Parlamentos, pag. 87)

   Em Morte e Vida Severina, de 1955, João Cabral de Melo Neto nos apresenta um conto de Natal pernambucano. Severino, como tantos outros, é um retirante, à procura de melhor vida (um lugar que se possa plantar e colher, um lugar onde não se morre de “velhice antes dos trinta”). Ao longo do poema e de sua jornada, Severino encontra várias pessoas com as quais dialoga. É um referencial histórico do Brasil, do homem sertanejo que retira. Delicioso de se ler, um clássico nacional. Foi adaptado para o teatro, cinema e televisão.


E se somos Severinos
Iguais em tudo na vida,
Morremos de morte igual,
Mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida). 
(NETO, João Cabral de Melo. Morte e Vida Severina, pag. 46)

— Como a morte aqui é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem da morte ofício ou bazar. 
(NETO, João Cabral de Melo. Morte e Vida Severina, pag. 57)

   O Auto do Frade, de 1984, relata em forma de poesia o momento histórico da morte do Frei Caneca. Joaquim da Silva Rabelo, ou Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, ou simplesmente Frei Caneca, envolveu-se na Revolução Pernambucana (1817) e na Confederação do Equador (1824) e foi condenado à forca por rebelião contra as ordens de sua Majestade Imperial. É um poema-denúncia da hipocrisia das pessoas envolvidas. Lembrou-me do livro O Último Dia de Um Condenado, de Vitor Hugo, por apresentar alguém que terá em breve sua morte “pela justiça”. Um fato interessante é que três carrascos se recusaram a enforcar o Frei, por sua religiosidade, bem descrito no poema.


A gente nas calçadas:
— A corda não serve de nada,
não o arrasta nem o detém.
— É para mostrar que esse homem
já foi homem, era uma vez.
— Essa corda é para mostrar
que ele já é menos que gente. 
(NETO, João Cabral de Melo. O Auto do Frade, pag. 111-112)

Um oficial:
— Que ninguém se aproxime dele.
Ele é um réu condenado à morte.
Foi contra Sua Majestade,
contra a ordem tudo que é nobre.
Republicano, ele não quis
obedecer ordens da Corte.
Separatista, pretendeu
dar o Norte à gente do Norte.
Padre é para rezar
pela alma, mas não contra a fome. 
(NETO, João Cabral de Melo. O Auto do Frade, pag. 113)

Escrito por MsBrown

Um comentário:

  1. Poemas interessantíssimos, que eu confesso não ter muito conhecimento até ter lido seu post. Parabéns pelo levantamento... me interessou muito o que foi mostrado, pois gosto muito do gênero quando é tratado com momentos históricos. *-*

    Um abraço!
    http://universoliterario.blogspot.com.br

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