"A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdadeira" Theodor Adorno

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna

PALHAÇO

Auto da Compadecida! Uma história altamente moral e um apelo à misericórdia.

JOÃO GRILO

Ele diz “à misericórdia”, porque sabe que, se fôssemos julgados pela justiça, toda a nação seria condenada.

(SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida, pag. 16)



   A peça de teatro Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, é realmente um espetáculo! A linguagem simples e o tema de moralidade a torna acessível a todos.

   Primeiro assisti ao filme nacional, lançado em 2000, dirigido por Guel Arraes e estrelado por Matheus Nachtergaele, Selton Melo e Fernanda Montenegro. Apesar de ter gostado muito, nunca tinha pensado em ler a obra, até que, por acaso, a encontrei na biblioteca da faculdade e meu sorriso cresceu imensamente. Não me arrependo de ter tirado essas poucas horas para ler.

   Baseada em histórias populares do Nordeste, Auto da Compadecida recebe interferência de um Palhaço que inicia a peça, como se fosse um narrador oportuno. Esse Palhaço é um personagem que avisa aos espectadores o que eles podem esperar e também explica sobre a representação do Encourado (diabo), Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo (ou Manuel), para que o público não se assuste. Em dados momentos, o Palhaço intere quanto ao cenário, dizendo aos atores o que eles devem fazer, o que deu um gostinho de “improvisado” ao teatro e que gostei muito. É uma peça sem pretensão.



PALHAÇO

Ao escrever esta peça, onde combate o mundanismo, praga de sua igreja, 
o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, 
mais do que ninguém, que sua alma é um velho catre, cheio de insensatez 
e de solércia. Ele não tinha o direito de tocar nesse tema, mas ousou fazê-lo, 
baseado no espírito popular de sua gente, porque acredita que esse povo 
sofre e tem direito a certas intimidades.

(SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida, pag. 16)



   A peça trata-se das artimanhas de João Grilo que, sentindo-se negligenciado pelo patrão padeiro e a mulher do mesmo (que deram bife na manteiga para o cachorro e nada para o próprio João Grilo, numa ocasião em que este estava doente), tenta se vingar conseguindo mais dinheiro deles. O companheiro de João é Chicó, um homem sem coragem que conta muitas mentiras, porém inocentemente. A frase “Não sei, só sei que foi assim” é dele e sempre vem depois de uma história um tanto improvável como, por exemplo, um peixe pescando um homem. Esses dois personagens, é possível notar, são pobres e querem apenas sobreviver. No entanto, eles reconhecem a injustiça que as pessoas praticam e, no caso de João, isso não pode ficar assim.

   Os outros personagens incluem o Padre, o Sacristão, o Bispo (todos se envolvem na história de enterrar um cachorro em latim porque ele supostamente deixou um testamento oferecendo alguns trocados para essas pessoas), o Severino (um cangaceiro que manda matar quase todos), o outro cangaceiro e a representação do Encourado (o diabo), o demônio, Manuel (Jesus) e a Compadecida. Os últimos participam do ato final, do julgamento, numa cena hilária que trata a humanidade, com suas virtudes e fraquezas.

Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna
   No final do livro, tem o texto de Braulio Tavares , com o título Tradição Popular e Recriação no “Auto da Compadecida”, que discute a originalidade (ou a falta dela) do autor da peça. No primeiro parágrafo, é definido que Ariano Suassuna sempre que indagado de onde a ideia para tal cena veio, confessava que tinha lido em uma história, deixando quem perguntava um tanto desapontado. Então Braulio diz que, por contar algumas tradições, é lógico que Ariano tenha se baseado em histórias já contadas e que isso não diminui a originalidade, porque o individualismo literário se fez presente, e que isso acontece em muitas obras. No início do livro há três trechos de poemas que dizem muito sobre a obra em si: O Castigo da Soberba, obra popular recolhida por Leonardo Mota junto ao cantador Anselmo Vieira de Sousa (1867-1926), O Enterro do Cachorro, fragmento de O Dinheiro, de Leandro Gomes de Barro (1865-1918) e História do Cavalo que Defecava Dinheiro, obra popular recolhida por Leonardo Mota.

   Original ou não, Auto da Compadecida já se tornou um clássico do teatro, recebeu adaptação para o cinema e a televisão na forma de minissérie da Globo (em 1999). A cena do julgamento me lembrou a peça de Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno, com anjo e diabo discutindo para onde as pessoas deveriam ir. Aqui a Compadecida representa a compreensão sobre os humanos, e a chance de absolvê-los.



A COMPADECIDA

(…) É verdade que eles praticaram atos vergonhosos, 
mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. 
A carne implica essas coisas turvas e mesquinhas. 
Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, 
porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, 
e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.

(SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida, pag. 149)

Escrito por MsBrown

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